quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O Médico, a Neurose e a Tragédia no Castelo

 Uma passagem peculiar, quase tragicômica, ocorreu envolvendo o Capitão Mirandolino Jose Caldas, um médico psiquiatra convocado pela Força Expedicionária Brasileira. Caldas era um oficial competente, mas pitoresco, como muitos de sua especialidade. Ele defendia uma teoria ousada e, para muitos, bizarra: para tratar os soldados portadores de neuroses e problemas psíquicos adquiridos no front, eles deveriam permanecer próximos à frente, ouvindo o barulho das granadas, como parte de uma terapia de habituação.

Caldas conseguiu convencer a chefia e ocupou um pequeno castelo do outro lado da Praça de Porreta para instalar seus pacientes. A teoria colapsou sob o peso do ferro e da pólvora.

Um dia, o castelo foi "acertado". A investida culminou na morte de um sargento. A ordem de evacuação foi imediata. Durante a noite, o Tenente Newton Gabriel de Souza, comandante do 2º Pelotão de triagem, recebeu o comando do Capitão Vaz para retirar os homens daquele local de risco.

O Capitão Mirandolino, antes da tragédia, protagonizou um episódio que virou piada de quartel. Costumava levar os pacientes para banhos nas termas de Porreta. Colocava-os em formação rígida, coluna por três, marchando pela praça, com ele à frente, marcando o passo. Em uma dessas ocasiões, a praça foi alvo de um intenso ataque de artilharia, com várias granadas caindo ao redor. O médico olhou para trás e viu uma cena inacreditável: todos os soldados estavam rastejando, buscando freneticamente a proteção do solo. Ele era o único em pé.

Um psiquiatra, tentando curar a neurose da guerra, ironicamente o único a desafiar o instinto de sobrevivência no meio do bombardeio. Um episódio que, para a tropa, era apenas uma "coisa de psiquiatra". Mas, para a História, é a prova de que a linha entre a bravura e a insanidade era tênue na frente de batalha.


Baseado no relato do General-de-Divisão Médico Geraldo Augusto D’Abreu (História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial).

AS DIVISÕES NEGRAS DE STALIN: O segredo dos prisioneiros que marcharam do Gulag para a morte em 1941.

 A Cor da Redenção: Quando os Condenados de Stalin Tornaram-se a Última Esperança da Rússia

É o verão de 1941. A máquina de guerra alemã avança impiedosa pelas estepes russas, esmagando tudo o que encontra pela frente. Nos relatórios de inteligência da Wehrmacht, no entanto, surge uma informação perturbadora, um detalhe que foge à lógica militar convencional. Os alemães começam a notar a presença de unidades estranhas no front. Não são soldados comuns. Eles não vestem o cáqui tradicional do Exército Vermelho. Eles não portam insígnias. Eles lutam vestidos com uniformes de trabalho pretos, gastos pelo tempo e pelo sofrimento.

Quem são esses homens? De onde eles vêm?

Durante décadas, a história oficial soviética manteve um silêncio sepulcral sobre a identidade desses combatentes. Mas documentos e memórias censuradas, resgatados das sombras do passado, revelam agora a verdade brutal sobre as chamadas "Divisões Negras".

No momento de maior desespero, quando as divisões regulares eram dizimadas pela Luftwaffe e pela Wehrmacht, Joseph Stalin tomou uma decisão drástica. Ele voltou seus olhos para a Sibéria. Não para buscar tropas de elite, mas para abrir os portões do inferno gelado do Gulag.

O General Kalinine, em suas memórias de guerra, deixa escapar a gênese desse exército de sombras. Em julho de 1941, ele recebe uma ordem direta do Kremlin: ceder o comando de seu exército e partir para a imensidão da taiga virgem. Sua missão? Organizar dez novas divisões em uma colônia de lenhadores. Em pouco tempo, cerca de 130.000 homens são reunidos. Não são recrutas. São prisioneiros. São os esquecidos do sistema.

Para o ditador soviético, os campos de concentração siberianos tornaram-se um reservatório inesgotável de "carne para canhão". Eram homens habituados à disciplina draconiana, calejados pelo frio e pela fome, organizados em brigadas de trabalho que funcionavam como pelotões. A maioria já havia cumprido serviço militar antes de cair em desgraça. Eram a matéria-prima perfeita para uma guerra de atrito.

Eles chegaram ao front sem tempo para trocas de uniforme. Marcharam para a batalha vestindo o que tinham: as blusas civis, as "Kasovorotka", e as jaquetas acolchoadas pretas — as Telogreika ou Vatovik — que lhes valeram o apelido sombrio de "Divisões Negras" entre os alemães. Nos pés, botas de couro sintético; nas mãos, fuzis Mosin de 1891, armas da Primeira Guerra Mundial retiradas às pressas dos depósitos, ou fuzis Mauser capturados dos poloneses anos antes.

Mas o que leva um homem, traído e aprisionado pelo seu próprio país, a lutar com tanta ferocidade por ele?

É aqui que reside o mistério da alma russa. Esses prisioneiros políticos e comuns não odiavam Stalin. Eles acreditavam, com uma fé quase religiosa, que seu destino funesto era um erro burocrático, culpa de algum pequeno funcionário do NKVD, e não do líder supremo. Eles viam no campo de batalha não a morte, mas a chance de redenção. A oportunidade de lavar seus supostos crimes com o próprio sangue.

Entre eles, estavam não apenas soldados rasos, mas oficiais brilhantes que as purgas de 1937 haviam varrido do mapa. O mais notável deles, o Marechal Konstantin Rokossovski. Antes de comandar a 16ª Armada Transbaikal, Rokossovski sentiu na pele o frio do Gulag. Sua armada foi composta, em grande parte, por seus antigos companheiros de infortúnio.

Em suas memórias, Rokossovski deixaria registrada uma lição de humanidade nascida na brutalidade: "A vida me convenceu de que se pode confiar até mesmo em alguém que já cometeu infrações à lei. Se permitirmos a tal homem resgatar sua falta, o bem triunfará e o amor à pátria fará dele um bravo soldado".

As "Divisões Negras" foram o escudo improvisado que a Rússia ergueu quando tudo parecia perdido. Homens sem nome, sem patente e sem glória, que saíram da escuridão do cárcere para o fogo da guerra, provando que, às vezes, os maiores heróis são aqueles que a história tentou apagar.

PEARL HARBOR SOB O OLHAR DE UMA ENFERMEIRA: O DOMINGO QUE MUDOU A HISTÓRIA

 A tranquilidade tropical do Havaí escondia o cenário da catástrofe iminente. Para a Tenente Ruth Erickson, do Corpo de Enfermeiras da Marinha dos Estados Unidos, a jornada até aquele ponto havia sido marcada por uma mistura de dever militar e aventuras exóticas. Tudo parecia seguir o ritmo compassado da vida militar em tempos de paz relativa. Após manobras e um período de descanso em Charlotte Amalie, nas Ilhas Virgens, a rota deveria levar a frota para Nova York. O destino, contudo, tinha outros planos. Em Norfolk, Virgínia, as ordens mudaram drasticamente diante dos rumores de que o Japão "afiava o sabre". Os navios reabasteceram e retornaram à Costa Oeste. O navio Relief foi o último a cruzar o Canal do Panamá, cujas comportas operavam dia e noite, seguindo para San Pedro, na Califórnia.

A vida de Ruth Erickson sofreu nova alteração em 8 de maio de 1940. Ela recebeu ordens para se apresentar ao Hospital Naval de Pearl Harbor, no Havaí, após o fim das manobras de primavera da frota. Era o início de mais um capítulo em sua vida. Sob o comando do Capitão Reynolds Hayden e com a senhorita Myrtle Kinsey chefiando o serviço de enfermagem, Ruth reencontrou a supervisora do centro cirúrgico, senhorita Winnie Gibson. A rotina era paradisíaca. As enfermeiras desfrutavam de quartos confortáveis, chá gelado e abacaxi fresco sempre à disposição. Os turnos eram bem definidos e permitiam momentos de lazer nas praias, piqueniques e danças ao som de melodias havaianas sob o céu estrelado do hotel Royal Hawaiian.

A normalidade, entretanto, começou a ruir fisicamente antes mesmo do ataque. Uma semana antes do fatídico dia, os alojamentos das enfermeiras foram esvaziados para dar lugar a uma doca seca. Elas foram realocadas para uma estrutura provisória em forma de "E", do outro lado da rua do hospital. Com a frota do Pacífico transferida de San Diego para Pearl Harbor, o hospital operava em capacidade máxima. Ruth Erickson trabalhou no sábado, 6 de dezembro, até as dez da noite. O domingo seria seu dia de folga.

Naquela manhã de domingo, Ruth e algumas colegas tomavam um café tardio no refeitório quando o rugido de aviões quebrou o silêncio. Acreditavam ser os pilotos de Ford Island em treinamento. O engano durou pouco. Sons estranhos e o voo rasante de uma aeronave sobre o alojamento revelaram a verdade. Ruth correu para a janela e viu o sol nascente pintado sob a asa do avião. O inimigo estava ali. O piloto voava tão baixo que era quase possível distinguir seus traços através dos óculos de proteção. Ele poupava munição para os navios de guerra alinhados logo abaixo: o California, o Arizona e o Oklahoma.

O telefone tocou. A enfermeira-chefe Gertrude Arnest foi direta ao ordenar que todas vestissem os uniformes imediatamente, pois aquilo era real. Enquanto trocava de roupa, Ruth percebeu que o dia virara noite. A fumaça dos navios em chamas escurecia o céu. Ao atravessar a rua rumo ao hospital, ela correu sob uma chuva de estilhaços. O choque a paralisou por uma fração de segundo na varanda, sentimento compartilhado por alguns médicos ao redor.

A urgência exigia ação. A sala de curativos ortopédicos estava trancada e a busca pelas chaves na mesa do Oficial do Dia pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente entraram, encheram recipientes com água e prepararam os instrumentos, aproveitando que a eletricidade e o abastecimento de água ainda funcionavam. O Dr. Clyde W. Brunson, chefe de medicina, viu seus planos de jogar golfe desaparecerem para sempre.

O primeiro paciente chegou às oito e vinte e cinco da manhã. Trazia um ferimento grave no abdômen e sangrava muito. Ruth jamais esqueceria o tremor nas mãos do Dr. Brunson ao tentar iniciar uma transfusão. O paciente faleceu em menos de uma hora. Em seguida, começou o fluxo interminável de queimados. Marinheiros do USS Nevada, que encalhara perto dali no Hospital Point, nadaram através de águas cobertas por óleo denso. Como usavam o traje tropical de camisetas brancas e shorts, as queimaduras eram severas nas áreas expostas do corpo. A equipe médica improvisou, utilizando pulverizadores de inseticida cheios de ácido tânico para tratar as lesões e administrando sedativos para a dor intensa.

Em meio ao caos, um avião japonês abatido atingiu a quadra de tênis e arrancou um pedaço do laboratório adjacente, matando as cobaias, o que deixou o patologista-chefe, Dr. Shaver, consternado. O trabalho não parou. Um médico, ainda convalescendo de uma cirurgia renal feita dias antes, levantou-se do leito para ajudar.

Ao anoitecer, o medo tornou-se palpável. Ruth retornou ao serviço às oito da noite em uma ala cirúrgica que operava com lanternas e janelas vedadas com papel preto. Por volta das dez ou onze horas, o som de aviões provocou pânico. Joelhos tremiam e pacientes clamavam pelas enfermeiras. Eram, na verdade, aviões americanos, mas a tensão era absoluta. Ruth passou o resto da noite no porão do hospital, onde famílias dos oficiais se abrigavam amontoadas.

A calmaria do dia seguinte revelou a devastação, embora a fumaça impedisse uma visão clara de Ford Island. A rotina de guerra se instalou até a noite de 17 de dezembro, quando Ruth recebeu ordens de partida imediata. Sem saber o destino, ela e as enfermeiras Lauretta Eno e Catherine Richardson vestiram seus uniformes de ala, capas e chapéus de feltro azul. Foram levadas ao cais em Honolulu para embarcar no navio a vapor President Coolidge, transformado em transporte de feridos.

O navio partiu na tarde do dia 19, integrando um comboio que navegava em zigue-zague e no escuro total para evitar submarinos. Rumores de periscópios na água eram constantes. O mar revolto e a ventilação precária devido às escotilhas lacradas tornaram a viagem penosa. O destino final foi São Francisco, onde chegaram na manhã de Natal com 124 pacientes. Um havia falecido na noite anterior à chegada.

A operação foi mantida em segredo absoluto. Não houve notícias nos jornais. A Cruz Vermelha aguardava com café e donuts, um contraste acolhedor após dias de tensão no mar. Em Mare Island, um médico que servira no USS Arizona meses antes perguntou a Ruth o que havia acontecido, pois ninguém sabia de nada. O silêncio da censura imperava, mas a memória de Ruth Erickson guardava os detalhes vívidos do dia em que o paraíso ardeu em chamas.