quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O Médico, a Neurose e a Tragédia no Castelo

 Uma passagem peculiar, quase tragicômica, ocorreu envolvendo o Capitão Mirandolino Jose Caldas, um médico psiquiatra convocado pela Força Expedicionária Brasileira. Caldas era um oficial competente, mas pitoresco, como muitos de sua especialidade. Ele defendia uma teoria ousada e, para muitos, bizarra: para tratar os soldados portadores de neuroses e problemas psíquicos adquiridos no front, eles deveriam permanecer próximos à frente, ouvindo o barulho das granadas, como parte de uma terapia de habituação.

Caldas conseguiu convencer a chefia e ocupou um pequeno castelo do outro lado da Praça de Porreta para instalar seus pacientes. A teoria colapsou sob o peso do ferro e da pólvora.

Um dia, o castelo foi "acertado". A investida culminou na morte de um sargento. A ordem de evacuação foi imediata. Durante a noite, o Tenente Newton Gabriel de Souza, comandante do 2º Pelotão de triagem, recebeu o comando do Capitão Vaz para retirar os homens daquele local de risco.

O Capitão Mirandolino, antes da tragédia, protagonizou um episódio que virou piada de quartel. Costumava levar os pacientes para banhos nas termas de Porreta. Colocava-os em formação rígida, coluna por três, marchando pela praça, com ele à frente, marcando o passo. Em uma dessas ocasiões, a praça foi alvo de um intenso ataque de artilharia, com várias granadas caindo ao redor. O médico olhou para trás e viu uma cena inacreditável: todos os soldados estavam rastejando, buscando freneticamente a proteção do solo. Ele era o único em pé.

Um psiquiatra, tentando curar a neurose da guerra, ironicamente o único a desafiar o instinto de sobrevivência no meio do bombardeio. Um episódio que, para a tropa, era apenas uma "coisa de psiquiatra". Mas, para a História, é a prova de que a linha entre a bravura e a insanidade era tênue na frente de batalha.


Baseado no relato do General-de-Divisão Médico Geraldo Augusto D’Abreu (História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial).