quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Monte Castello: A Longa Noite do Soldado Véssio

 A história se desenrola nas encostas geladas do Monte Castello, na Itália, em 29 de novembro de 1944. Naquela madrugada, o Soldado Véssio Maneli, natural de Sorocaba, São Paulo, preparava-se para enfrentar o horror. Ele pertencia à 3ª Companhia do 1º Batalhão do Regimento Sampaio, sob o comando do Capitão Salvador Gonçalves Mandim e do Major Olívio Gondim de Uzeda.



À 1 hora da manhã, a tropa avançou para a base do morro. A ordem era cavar. Maneli buscou abrigo em um "buraco" improvisado. Mas ali, a natureza impôs a primeira provação: à medida que a terra era revolvida, o poço se enchia de água. As poucas horas de descanso antes do ataque foram passadas dentro d'água, envolto na manta, uma imagem eloquente da precariedade na linha de frente.

O dia raiou. Após uma escassa ração K, o ataque foi lançado às 7 horas. A ordem era avançar, mesmo em terreno completamente descoberto, pelas encostas da montanha. O cenário, imediatamente, se transformou em um pandemônio de chumbo e aço. "Choviam granadas e balas de todos os lados", conforme o relato, com a artilharia brasileira disparando perigosamente próxima à progressão da infantaria.

O avanço foi rapidamente neutralizado. Diante da intensa e implacável reação alemã, os pracinhas foram detidos, forçados a estagnar sob um fogo cerrado. O Capitão Mandim, que seria ferido na cabeça naquele dia, ordenou que buscassem abrigo e aguardassem a oportunidade de retomada.

Foi ali, logo no início da batalha, enquanto tentava desesperadamente cavar um abrigo mais seguro, que o Soldado Maneli foi atingido pela primeira vez, ferido nas costas. Impossibilitado de prosseguir, o soldado, agora um alvo estático, testemunhou a fúria da batalha ao seu redor.

No depoimento, o praça descreve o momento de forma dramática: incapazes de alcançá-lo fatalmente, "as balas pareciam que tiveram pena". O fogo inimigo, porém, não cessou, mas passou a cravar o chão ao redor do seu corpo ferido, "jogando-lhe terra como se quisessem enterrá-lo ali mesmo". Uma metáfora brutal da iminência da morte.

A agonia durou todo o dia, sob o inferno do campo de batalha. Somente ao escurecer, com o cessar-fogo, pôde chegar o socorro. Um padioleiro (maca) veio em seu auxílio, prestando-lhe os primeiros curativos. A jornada para a retaguarda, contudo, foi longa. Apenas às 23h00min, uma equipe de transporte o levou em um jipe até o posto de socorro do batalhão.

Maneli foi estabilizado, recebendo um aparelho de ferro na coxa esquerda. Dali, sua dolorosa rota de ferido o levou a hospitais em Valdibur, Pistóia e, finalmente, Livorno

Ficou na memória que a ferida maior se instalaria, aquela que nenhum curativo cicatriza: a lembrança da chuva, da lama e dos tiros que pareciam cavar, junto com a terra, o nome dos que ficaram para trás.