É a madrugada de 14 de outubro de 1939. O local: as águas gélidas e escuras de Scapa Flow, o santuário impenetrável da Marinha Real Britânica, nas Ilhas Orkney, ao norte da Escócia. O mundo prende a respiração. Sob a superfície negra, uma máquina de guerra silenciosa, o submarino U-47, desliza como um predador invisível. No comando, um homem de 31 anos, olhos fixos no periscópio, nervos de aço e uma ambição que desafia a própria morte: o Capitão-Tenente Günther Prien.
Esta não é apenas uma missão militar. É um "golpe de tambor", o Paukenschlag de Prien. Uma operação suicida que mudaria os rumos da guerra no mar e transformaria um homem comum em uma lenda, antes de ser tragado, anos depois, pelo mesmo oceano que o consagrou.
A Missão Impossível
Para entender a magnitude do que aconteceu naquela noite, precisamos voltar aos gabinetes de Berlim. O Almirante Karl Dönitz, o cérebro por trás da força de submarinos alemã, carregava um desejo antigo: penetrar no coração da frota inimiga. Scapa Flow não era apenas um porto; era o símbolo do poder naval britânico. Protegida por correntes violentas, redes antissubmarino, campos minados e navios de bloqueio propositalmente afundados, a baía era considerada inexpugnável.
Mas Dönitz, debruçado sobre mapas e fotografias de reconhecimento aéreo trazidas pela Luftwaffe em setembro de 1939, viu o que ninguém mais viu: uma falha. No Estreito de Holm, entre os navios de bloqueio enferrujados, havia uma brecha. Uma abertura estreita, de apenas 17 metros de largura e sete de profundidade. Era um convite para a morte ou para a glória.
Dönitz precisava de um homem capaz de navegar por aquele buraco de agulha. Sua escolha recaiu sobre Günther Prien. "Tinha as qualidades de soldado e as habilidades de marinheiro necessárias para o empreendimento", diria Dönitz mais tarde. Prien aceitou o desafio após 48 horas de reflexão. A operação exigia sigilo absoluto. Nem mesmo a tripulação sabia para onde estava indo quando o U-47 deixou Kiel em 8 de outubro.
Nas Entranhas do Inimigo
A tensão a bordo era palpável. O U-47, um submarino do Tipo VII B, a espinha dorsal da frota submarina alemã, era uma maravilha da engenharia, mas ali, nas águas traiçoeiras do norte, era apenas uma casca de metal frágil contra a força da natureza e do inimigo.
Na noite do ataque, a sorte parecia brincar com o destino. A aurora boreal iluminava o céu, criando uma visibilidade indesejada. "A baía está repugnantemente clara", anotaria Prien em seu diário de guerra. O submarino navega na superfície, esgueirando-se entre os navios de bloqueio. O casco raspa no fundo, os cabos de aço dos navios afundados roçam o metal. Por um momento, o U-47 fica preso. Mas com manobras bruscas e o sopro dos tanques de lastro, Prien liberta sua nave. Eles estão dentro.
Diante deles, a "Grande Frota" deveria estar ancorada. Mas a baía parecia vazia. A inteligência falhara? Prien não desiste. Ele avista as sombras colossais ao norte. O encouraçado HMS Royal Oak, com suas 29.000 toneladas, e ao fundo, o que a tripulação identificou como o cruzador de batalha HMS Repulse (embora registros históricos sugiram que fosse o navio-base Pegasus ou o Iron Duke).
Torpedos Mortais e o Silêncio da Morte
Prien ordena o ataque. Eram quase uma da manhã. Os tubos de torpedo são inundados. "Fogo!". Três torpedos elétricos G7e rasgam a água, invisíveis, sem deixar o rastro de bolhas característico dos modelos a ar comprimido. O tempo passa. Segundos que parecem horas.
Uma explosão surda no norte. O Royal Oak é atingido na proa. Mas, incrivelmente, nada acontece. A bordo do gigante britânico, muitos acreditam que foi uma explosão interna menor, talvez um acidente no paiol de tintas. A tripulação volta a dormir. O destino lhes deu uma segunda chance, mas eles não sabiam.
No U-47, a frustração é imensa. Um torpedo falhou, outro não detonou. A arma submarina alemã enfrentava problemas técnicos graves com seus detonadores magnéticos e de profundidade. Mas Prien é frio. Ele não recua. Ele ordena a recarga.
Em um feito de adestramento impressionante, a tripulação recarrega os tubos em menos de 20 minutos, no escuro, sob o nariz do inimigo. Às 01h22, a segunda salva é disparada. Desta vez, não há erro.
Os torpedos atingem o Royal Oak a meia-nau. As explosões detonam os paióis de munição. O gigante de aço estremece, a eletricidade falha, e o navio começa a adernar rapidamente. As vigias abertas para ventilação agora engolem o mar. Em minutos, o orgulho da marinha britânica vira de cabeça para baixo e afunda, levando consigo 833 homens para um túmulo úmido e escuro.
A Fuga e a Consagração
O caos se instala em Scapa Flow. Holofotes varrem o céu, procurando bombardeiros, incapazes de conceber que um submarino estivesse ali, no meio deles. Carros correm pela costa. Destróieres começam a patrulhar.
Prien, com a frieza de um cirurgião, ordena a retirada. "Tenho que ver se consigo sair daqui com meu barco", pensa ele. O retorno pelo Estreito de Holm é um pesadelo de correntes contrárias. O U-47 luta contra a maré, avançando lentamente, "na ponta dos pés", passando novamente pelos navios de bloqueio. Às 02h15, eles estão livres. O Atlântico os recebe de volta.
A notícia explode como uma bomba. A BBC confirma o afundamento. Na Alemanha, a propaganda nazista transforma Prien em um ídolo instantâneo. O "Touro de Scapa Flow", como ficou conhecido após sua tripulação pintar a figura de um touro bufando na torre do submarino, retorna a Wilhelmshaven como herói.
A cena no cais é de delírio. O próprio Grande Almirante Raeder o recebe. Hitler envia seu avião pessoal, o "Condor", para levar a tripulação a Berlim. Prien é o primeiro oficial da Marinha a receber a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Ele desfila em carro aberto pela capital, janta com Goebbels, é aclamado pelas multidões. Ele se torna a face da vitória alemã, o homem que humilhou a Marinha Real em sua própria casa.
O Homem por Trás da Lenda
Mas quem era Günther Prien? Nascido em 1908, filho de um juiz, ele fugiu de uma vida burguesa para o mar aos 15 anos. Trabalhou na marinha mercante, aprendeu a dureza da vida nos oceanos. Juntou-se à Reichsmarine em 1933, movido pela necessidade e pela vocação.
Seus superiores o descreviam como um homem de "alegria despreocupada", mas com um "caráter firme e decidido". Era um líder nato. "Tinha a tripulação atrás de si desde o primeiro dia", escreveu seu comandante de flotilha, Ernst Sobe. Ele não era apenas um fanático ideológico, mas um profissional consumado, um tático brilhante que possuía aquele instinto raro dos grandes caçadores.
No entanto, a fama trouxe seu preço. Prien tornou-se uma ferramenta de propaganda. Ele representava o ideal do guerreiro germânico: jovem, destemido, vitorioso. Mas a guerra no mar não perdoa, nem mesmo os heróis.
Desaparecido no Atlântico: O Último Mistério
O tempo avançou. A guerra tornou-se mais brutal. Os "Tempos Felizes" dos submarinos, onde os navios mercantes eram caçados sem oposição, começaram a desaparecer com o advento de novas tecnologias aliadas, como o radar e o sonar.
Em 1941, Prien ainda estava lá fora, caçando. Mas em 7 de março, algo aconteceu. O U-47, o barco que desafiou Scapa Flow, desapareceu nas águas cinzentas do Atlântico Norte enquanto atacava o comboio OB-293.
Por décadas, a história oficial contou que o destróier britânico HMS Wolverine havia encurralado e destruído o U-47 com cargas de profundidade. Seria o fim poético: o caçador caçado por sua presa.
Mas a verdade, como muitas vezes acontece na guerra, é mais turva. Pesquisas modernas indicam que o Wolverine provavelmente atacou outro submarino, o UA, que sobreviveu. O que, então, matou Günther Prien e seus 45 homens?
As teorias são muitas. Teria o U-47 sido vítima de uma de suas próprias armas falhas? Um torpedo que, após disparado, fez uma curva circular e voltou para destruir quem o lançou?. Teria ele colidido com uma mina à deriva? Ou teria sucumbido a uma falha mecânica, mergulhando para o fundo, esmagado pela pressão insuportável do oceano?
Não houve destroços. Não houve corpos. Não houve testemunhas. O Almirante Dönitz e o alto comando mantiveram a morte de Prien em segredo por semanas, temendo o impacto no moral alemão. Quando o anúncio finalmente veio, em maio de 1941, o país entrou em choque.
O Derradeiro Silêncio
Hoje, o local de descanso final do U-47 permanece desconhecido. O "Touro de Scapa Flow" repousa em algum lugar na vastidão escura, um túmulo de ferro para homens que viveram e morreram pela guerra.
A história de Günther Prien é um lembrete sombrio da natureza do conflito. De um lado, a audácia técnica e a coragem humana que permitiram a invasão de Scapa Flow, estudada até hoje em academias navais. Do outro, a tragédia de 833 marinheiros britânicos mortos enquanto dormiam e o destino final, solitário e misterioso, de seus algozes.
O ataque a Scapa Flow foi o ponto alto da carreira de Prien, um momento em que a habilidade individual parecia capaz de dobrar o destino das nações. Mas no fim, o mar reclamou a todos. Resta apenas o eco daquele "golpe de tambor", ressoando através das décadas, uma história de guerra onde a glória e a morte caminham, como sempre, de mãos dadas.