quinta-feira, 30 de outubro de 2025

HERÓIS SEM ARMAS: A MISSÃO SECRETA DE 29 BANCÁRIOS NA GUERRA QUE SALVARAM A ECONOMIA DA FEB

 

A Reportagem: Os Homens da AGEFEB na Campanha da Itália

Eles não vestiam a farda do combate, mas a camisa de uma instituição que representa a força econômica de uma nação. Eram vinte e nove funcionários do Banco do Brasil S.A., enviados a um teatro de operações bélicas com uma missão tão vital quanto o suprimento de munição: garantir o sustento financeiro da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em solo italiano.



Era a Agência Especial do Banco do Brasil junto à Força Expedicionária Brasileira, a AGEFEB. Sua tarefa primária não era derrubar o inimigo, mas sim oferecer o serviço financeiro essencial às tropas, um trabalho de bastidores que se revelaria monumental.

O Front Invisível

Longe das trincheiras, mas sob a mesma sombra da guerra, esses profissionais enfrentavam um front diferente. Suas atividades principais incluíam: a inédita guarda de dinheiro em contas-correntes para os pracinhas, transferências de valores para o Brasil, suprimento de fundos à Pagadoria Fixa da FEB, e a complexa conversão de moedas (cruzeiros, dólares, francos) para a lira italiana, e a reconversão no retorno ao Brasil. Além disso, atuaram como ponte de comunicação, distribuindo telegramas e auxiliando na instalação de militares em trânsito.

A rotina impunha uma dedicação incomum. Tal como os combatentes, para os homens da AGEFEB, não havia hora para o trabalho. O acúmulo de serviço era uma ameaça à boa marcha da tropa, e por isso o expediente seguia sem pausas.

Dupla Responsabilidade Sob Bombas

A responsabilidade era dupla e esmagadora: gerir os cofres do Banco e operar em um Teatro de Operações Bélicas, onde as ordens eram mais severas e um erro mínimo poderia gerar um transtorno de proporções. No entanto, calmos, meticulosos e conhecedores de sua missão, eles a cumpriram com dignidade.

Durante a campanha, a AGEFEB instalou três escritórios: em Nápoles (agosto de 1944), em Roma (setembro de 1944), que era a base administrativa e de escrituração, e em Pistoia (dezembro de 1944). O diferencial era Pistoia, o único escritório que acompanhava a tropa em seus deslocamentos, tornando o acesso às contas e transferências mais ágil. Com o avanço da FEB, Pistoia foi movida para Gênova em maio de 1945.

O Reconhecimento Histórico

Dirigida pelo Coronel Gastão Luiz Detsi, a AGEFEB se provou um órgão indispensável. A grande distância do Brasil e a dificuldade de comunicação impunham um desafio imenso, mas a equipe superou as adversidades com patriotismo.

Os funcionários abandonaram o conforto do lar e compartilharam do destino da FEB. Embora distantes da linha de batalha, onde o troar dos canhões e o rajar das metralhadoras cobravam o preço das "neuroses de guerra", esses homens foram heróis sem armas.

O reconhecimento veio da maior autoridade em solo italiano. O General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, bravo Comandante da FEB, manifestou sua admiração pela cooperação e pela conduta exemplar mantida ao longo dos onze árduos meses de luta.

O Comando destacou a ordem, a perfeita organização, a correção e a presteza do serviço, o que garantiu a assistência fundamental ao movimento de fundos e à economia da tropa. Além disso, o General enalteceu a solicitude do pessoal, que colaborou espontaneamente na distribuição de cartas e telegramas, e na divulgação de dados sobre as riquezas do Brasil ao povo italiano.

Em seu louvor, Mascarenhas de Morais atestou: "Imbuídos de um são patriotismo e de uma elevada noção de civismo, seus funcionários abandonaram inteiramente os interesses particulares e o conforto do lar e vieram compartilhar conosco do destino da F. E. B."

Os nomes desses paisanos fardados, que souberam executar sua missão como valorosos soldados, ocuparão as páginas da história da gloriosa Força Expedicionária Brasileira.

Baseado no texto: O Brasil na Guerra - Kepler A. Borges

Monte Castello: A Longa Noite do Soldado Véssio

 A história se desenrola nas encostas geladas do Monte Castello, na Itália, em 29 de novembro de 1944. Naquela madrugada, o Soldado Véssio Maneli, natural de Sorocaba, São Paulo, preparava-se para enfrentar o horror. Ele pertencia à 3ª Companhia do 1º Batalhão do Regimento Sampaio, sob o comando do Capitão Salvador Gonçalves Mandim e do Major Olívio Gondim de Uzeda.



À 1 hora da manhã, a tropa avançou para a base do morro. A ordem era cavar. Maneli buscou abrigo em um "buraco" improvisado. Mas ali, a natureza impôs a primeira provação: à medida que a terra era revolvida, o poço se enchia de água. As poucas horas de descanso antes do ataque foram passadas dentro d'água, envolto na manta, uma imagem eloquente da precariedade na linha de frente.

O dia raiou. Após uma escassa ração K, o ataque foi lançado às 7 horas. A ordem era avançar, mesmo em terreno completamente descoberto, pelas encostas da montanha. O cenário, imediatamente, se transformou em um pandemônio de chumbo e aço. "Choviam granadas e balas de todos os lados", conforme o relato, com a artilharia brasileira disparando perigosamente próxima à progressão da infantaria.

O avanço foi rapidamente neutralizado. Diante da intensa e implacável reação alemã, os pracinhas foram detidos, forçados a estagnar sob um fogo cerrado. O Capitão Mandim, que seria ferido na cabeça naquele dia, ordenou que buscassem abrigo e aguardassem a oportunidade de retomada.

Foi ali, logo no início da batalha, enquanto tentava desesperadamente cavar um abrigo mais seguro, que o Soldado Maneli foi atingido pela primeira vez, ferido nas costas. Impossibilitado de prosseguir, o soldado, agora um alvo estático, testemunhou a fúria da batalha ao seu redor.

No depoimento, o praça descreve o momento de forma dramática: incapazes de alcançá-lo fatalmente, "as balas pareciam que tiveram pena". O fogo inimigo, porém, não cessou, mas passou a cravar o chão ao redor do seu corpo ferido, "jogando-lhe terra como se quisessem enterrá-lo ali mesmo". Uma metáfora brutal da iminência da morte.

A agonia durou todo o dia, sob o inferno do campo de batalha. Somente ao escurecer, com o cessar-fogo, pôde chegar o socorro. Um padioleiro (maca) veio em seu auxílio, prestando-lhe os primeiros curativos. A jornada para a retaguarda, contudo, foi longa. Apenas às 23h00min, uma equipe de transporte o levou em um jipe até o posto de socorro do batalhão.

Maneli foi estabilizado, recebendo um aparelho de ferro na coxa esquerda. Dali, sua dolorosa rota de ferido o levou a hospitais em Valdibur, Pistóia e, finalmente, Livorno

Ficou na memória que a ferida maior se instalaria, aquela que nenhum curativo cicatriza: a lembrança da chuva, da lama e dos tiros que pareciam cavar, junto com a terra, o nome dos que ficaram para trás.

O Milagre: A Sorte Cega na Linha de Frente

 Em meio ao caos da Segunda Guerra Mundial, surgem histórias que desafiam a lógica e a estatística da morte. Fatos que, de tão improváveis, são imediatamente classificados como milagres.

O Batalhão estava aquartelado em Porreta Terme, uma localidade italiana que, por um detalhe topográfico crucial — um "ângulo morto" — oferecia uma proteção inesperada. As granadas da artilharia inimiga simplesmente não atingiam a área onde os homens se posicionavam. Elas passavam por cima. O barulho era constante, um ruído estranho, descrito por alguns como o bater de asas de um pássaro esquisito, sinalizando a trajetória da morte que cruzava o céu.

Em uma casa de três andares, a 1ª Companhia de Evacuação, comandada pelo Capitão Mario Victor de Assis Pacheco, estava acantonada. O Capitão Pacheco sentiu uma inquietação inexplicável. Mesmo sabendo da segurança garantida pelo "ângulo morto", ele não gostava da presença dos homens nos andares superiores. Num ato que hoje se revela uma providência, ordenou que todos descessem, que abandonassem o segundo e o terceiro pisos.

Naquela mesma noite, a matemática da guerra falhou. Por uma razão técnica desconhecida — talvez uma perda de força na trajetória —, a granada que deveria cruzar o céu arrebentou, destruindo completamente os dois andares que haviam sido evacuados horas antes. Ninguém foi ferido. Nenhum homem foi atingido. Foi o momento da sorte cega, imediatamente registrado nos anais do batalhão como um milagre.

Baseado no relato do General-de-Divisão Médico Geraldo Augusto D’Abreu (História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial).