A Reportagem: Os Homens da AGEFEB na Campanha da Itália
Eles não vestiam a farda do combate, mas a camisa de uma instituição que representa a força econômica de uma nação. Eram vinte e nove funcionários do Banco do Brasil S.A., enviados a um teatro de operações bélicas com uma missão tão vital quanto o suprimento de munição: garantir o sustento financeiro da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em solo italiano.
Era a Agência Especial do Banco do Brasil junto à Força Expedicionária Brasileira, a AGEFEB. Sua tarefa primária não era derrubar o inimigo, mas sim oferecer o serviço financeiro essencial às tropas, um trabalho de bastidores que se revelaria monumental.
O Front Invisível
Longe das trincheiras, mas sob a mesma sombra da guerra, esses profissionais enfrentavam um front diferente. Suas atividades principais incluíam: a inédita guarda de dinheiro em contas-correntes para os pracinhas, transferências de valores para o Brasil, suprimento de fundos à Pagadoria Fixa da FEB, e a complexa conversão de moedas (cruzeiros, dólares, francos) para a lira italiana, e a reconversão no retorno ao Brasil. Além disso, atuaram como ponte de comunicação, distribuindo telegramas e auxiliando na instalação de militares em trânsito.
A rotina impunha uma dedicação incomum. Tal como os combatentes, para os homens da AGEFEB, não havia hora para o trabalho. O acúmulo de serviço era uma ameaça à boa marcha da tropa, e por isso o expediente seguia sem pausas.
Dupla Responsabilidade Sob Bombas
A responsabilidade era dupla e esmagadora: gerir os cofres do Banco e operar em um Teatro de Operações Bélicas, onde as ordens eram mais severas e um erro mínimo poderia gerar um transtorno de proporções. No entanto, calmos, meticulosos e conhecedores de sua missão, eles a cumpriram com dignidade.
Durante a campanha, a AGEFEB instalou três escritórios: em Nápoles (agosto de 1944), em Roma (setembro de 1944), que era a base administrativa e de escrituração, e em Pistoia (dezembro de 1944). O diferencial era Pistoia, o único escritório que acompanhava a tropa em seus deslocamentos, tornando o acesso às contas e transferências mais ágil. Com o avanço da FEB, Pistoia foi movida para Gênova em maio de 1945.
O Reconhecimento Histórico
Dirigida pelo Coronel Gastão Luiz Detsi, a AGEFEB se provou um órgão indispensável. A grande distância do Brasil e a dificuldade de comunicação impunham um desafio imenso, mas a equipe superou as adversidades com patriotismo.
Os funcionários abandonaram o conforto do lar e compartilharam do destino da FEB. Embora distantes da linha de batalha, onde o troar dos canhões e o rajar das metralhadoras cobravam o preço das "neuroses de guerra", esses homens foram heróis sem armas.
O reconhecimento veio da maior autoridade em solo italiano. O General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, bravo Comandante da FEB, manifestou sua admiração pela cooperação e pela conduta exemplar mantida ao longo dos onze árduos meses de luta.
O Comando destacou a ordem, a perfeita organização, a correção e a presteza do serviço, o que garantiu a assistência fundamental ao movimento de fundos e à economia da tropa. Além disso, o General enalteceu a solicitude do pessoal, que colaborou espontaneamente na distribuição de cartas e telegramas, e na divulgação de dados sobre as riquezas do Brasil ao povo italiano.
Em seu louvor, Mascarenhas de Morais atestou: "Imbuídos de um são patriotismo e de uma elevada noção de civismo, seus funcionários abandonaram inteiramente os interesses particulares e o conforto do lar e vieram compartilhar conosco do destino da F. E. B."
Os nomes desses paisanos fardados, que souberam executar sua missão como valorosos soldados, ocuparão as páginas da história da gloriosa Força Expedicionária Brasileira.
Baseado no texto: O Brasil na Guerra - Kepler A. Borges


