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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

PEARL HARBOR SOB O OLHAR DE UMA ENFERMEIRA: O DOMINGO QUE MUDOU A HISTÓRIA

 A tranquilidade tropical do Havaí escondia o cenário da catástrofe iminente. Para a Tenente Ruth Erickson, do Corpo de Enfermeiras da Marinha dos Estados Unidos, a jornada até aquele ponto havia sido marcada por uma mistura de dever militar e aventuras exóticas. Tudo parecia seguir o ritmo compassado da vida militar em tempos de paz relativa. Após manobras e um período de descanso em Charlotte Amalie, nas Ilhas Virgens, a rota deveria levar a frota para Nova York. O destino, contudo, tinha outros planos. Em Norfolk, Virgínia, as ordens mudaram drasticamente diante dos rumores de que o Japão "afiava o sabre". Os navios reabasteceram e retornaram à Costa Oeste. O navio Relief foi o último a cruzar o Canal do Panamá, cujas comportas operavam dia e noite, seguindo para San Pedro, na Califórnia.

A vida de Ruth Erickson sofreu nova alteração em 8 de maio de 1940. Ela recebeu ordens para se apresentar ao Hospital Naval de Pearl Harbor, no Havaí, após o fim das manobras de primavera da frota. Era o início de mais um capítulo em sua vida. Sob o comando do Capitão Reynolds Hayden e com a senhorita Myrtle Kinsey chefiando o serviço de enfermagem, Ruth reencontrou a supervisora do centro cirúrgico, senhorita Winnie Gibson. A rotina era paradisíaca. As enfermeiras desfrutavam de quartos confortáveis, chá gelado e abacaxi fresco sempre à disposição. Os turnos eram bem definidos e permitiam momentos de lazer nas praias, piqueniques e danças ao som de melodias havaianas sob o céu estrelado do hotel Royal Hawaiian.

A normalidade, entretanto, começou a ruir fisicamente antes mesmo do ataque. Uma semana antes do fatídico dia, os alojamentos das enfermeiras foram esvaziados para dar lugar a uma doca seca. Elas foram realocadas para uma estrutura provisória em forma de "E", do outro lado da rua do hospital. Com a frota do Pacífico transferida de San Diego para Pearl Harbor, o hospital operava em capacidade máxima. Ruth Erickson trabalhou no sábado, 6 de dezembro, até as dez da noite. O domingo seria seu dia de folga.

Naquela manhã de domingo, Ruth e algumas colegas tomavam um café tardio no refeitório quando o rugido de aviões quebrou o silêncio. Acreditavam ser os pilotos de Ford Island em treinamento. O engano durou pouco. Sons estranhos e o voo rasante de uma aeronave sobre o alojamento revelaram a verdade. Ruth correu para a janela e viu o sol nascente pintado sob a asa do avião. O inimigo estava ali. O piloto voava tão baixo que era quase possível distinguir seus traços através dos óculos de proteção. Ele poupava munição para os navios de guerra alinhados logo abaixo: o California, o Arizona e o Oklahoma.

O telefone tocou. A enfermeira-chefe Gertrude Arnest foi direta ao ordenar que todas vestissem os uniformes imediatamente, pois aquilo era real. Enquanto trocava de roupa, Ruth percebeu que o dia virara noite. A fumaça dos navios em chamas escurecia o céu. Ao atravessar a rua rumo ao hospital, ela correu sob uma chuva de estilhaços. O choque a paralisou por uma fração de segundo na varanda, sentimento compartilhado por alguns médicos ao redor.

A urgência exigia ação. A sala de curativos ortopédicos estava trancada e a busca pelas chaves na mesa do Oficial do Dia pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente entraram, encheram recipientes com água e prepararam os instrumentos, aproveitando que a eletricidade e o abastecimento de água ainda funcionavam. O Dr. Clyde W. Brunson, chefe de medicina, viu seus planos de jogar golfe desaparecerem para sempre.

O primeiro paciente chegou às oito e vinte e cinco da manhã. Trazia um ferimento grave no abdômen e sangrava muito. Ruth jamais esqueceria o tremor nas mãos do Dr. Brunson ao tentar iniciar uma transfusão. O paciente faleceu em menos de uma hora. Em seguida, começou o fluxo interminável de queimados. Marinheiros do USS Nevada, que encalhara perto dali no Hospital Point, nadaram através de águas cobertas por óleo denso. Como usavam o traje tropical de camisetas brancas e shorts, as queimaduras eram severas nas áreas expostas do corpo. A equipe médica improvisou, utilizando pulverizadores de inseticida cheios de ácido tânico para tratar as lesões e administrando sedativos para a dor intensa.

Em meio ao caos, um avião japonês abatido atingiu a quadra de tênis e arrancou um pedaço do laboratório adjacente, matando as cobaias, o que deixou o patologista-chefe, Dr. Shaver, consternado. O trabalho não parou. Um médico, ainda convalescendo de uma cirurgia renal feita dias antes, levantou-se do leito para ajudar.

Ao anoitecer, o medo tornou-se palpável. Ruth retornou ao serviço às oito da noite em uma ala cirúrgica que operava com lanternas e janelas vedadas com papel preto. Por volta das dez ou onze horas, o som de aviões provocou pânico. Joelhos tremiam e pacientes clamavam pelas enfermeiras. Eram, na verdade, aviões americanos, mas a tensão era absoluta. Ruth passou o resto da noite no porão do hospital, onde famílias dos oficiais se abrigavam amontoadas.

A calmaria do dia seguinte revelou a devastação, embora a fumaça impedisse uma visão clara de Ford Island. A rotina de guerra se instalou até a noite de 17 de dezembro, quando Ruth recebeu ordens de partida imediata. Sem saber o destino, ela e as enfermeiras Lauretta Eno e Catherine Richardson vestiram seus uniformes de ala, capas e chapéus de feltro azul. Foram levadas ao cais em Honolulu para embarcar no navio a vapor President Coolidge, transformado em transporte de feridos.

O navio partiu na tarde do dia 19, integrando um comboio que navegava em zigue-zague e no escuro total para evitar submarinos. Rumores de periscópios na água eram constantes. O mar revolto e a ventilação precária devido às escotilhas lacradas tornaram a viagem penosa. O destino final foi São Francisco, onde chegaram na manhã de Natal com 124 pacientes. Um havia falecido na noite anterior à chegada.

A operação foi mantida em segredo absoluto. Não houve notícias nos jornais. A Cruz Vermelha aguardava com café e donuts, um contraste acolhedor após dias de tensão no mar. Em Mare Island, um médico que servira no USS Arizona meses antes perguntou a Ruth o que havia acontecido, pois ninguém sabia de nada. O silêncio da censura imperava, mas a memória de Ruth Erickson guardava os detalhes vívidos do dia em que o paraíso ardeu em chamas.