A narrativa da Força Expedicionária Brasileira na Itália sempre expõe a tensão entre o desconhecido e a determinação. Entre esses episódios, a atuação do Capitão Darcy Lázaro, do 11º Regimento de Infantaria, ganha contornos reveladores da resistência humana em meio ao avanço aliado de 1945. A ação ocorreu quando a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária consolidava posições na região de Castelnuovo, área tomada no dia 5 de março daquele ano. O avanço não cessaria ali. O planejamento exigia que o I Batalhão do 11º Regimento prosseguisse até as posições de C. Sasso ao fim da jornada seguinte, um terreno que permanecia sob atenção pela presença ativa de tropas alemãs.
A 1ª Companhia, integrada ao 11º Regimento de Infantaria, assumiu a tarefa central daquela progressão. O cenário era tudo menos previsível. A região era desconhecida pelos brasileiros e marcada por dificuldades naturais, típicas do relevo irregular da Toscana no final do inverno europeu. A ameaça inimiga estava confirmada e a tensão crescia conforme o grupo se aproximava da nova linha de frente.
Às 16h10 de 6 de março de 1945, o Capitão Lázaro deixou a base de partida conduzindo seus homens com a firmeza de quem sabia que não havia alternativa além de avançar. A missão era dura, mas sua postura revelava o que tantos relatos posteriores confirmariam: disposição inabalável, compreensão rigorosa do dever militar e confiança na capacidade técnica de sua companhia. A progressão daquela subunidade manteve-se organizada, atenta e coesa, atingindo sucessivamente os objetivos intermediários estabelecidos pelo comando.
Já sob o peso da noite, quando C. Sasso se aproximava, uma armadilha silenciosa alterou o ritmo da operação. O grupo ingressou em um campo minado de grandes proporções, uma das ameaças mais imprevisíveis daquele front. Minas antipessoais, largamente espalhadas, interrompiam qualquer segurança possível que o terreno pudesse oferecer. O desconhecimento da área tornava o avanço uma prova de cálculo e coragem a cada passo.
A explosão das primeiras minas feriu treze homens, fragilizando o conjunto e dificultando as ligações internas, essenciais para o comando e controle da tropa. O desgaste físico começava a cobrar seu preço. Mesmo assim, o Capitão Lázaro manteve a direção do avanço. Não houve pausa. Apenas adaptação. O ritmo diminuiu, mas a disposição se manteve.
A 1ª Companhia continuou a marchar na direção do objetivo, contornando a ameaça invisível das minas, reorganizando-se à medida que as dificuldades surgiam. Às 19h50, já em completa escuridão, o grupo atingiu finalmente C. Sasso. A instalação das posições começou de imediato, sem trégua. Durante toda a noite, os homens trabalharam para consolidar o terreno recém-conquistado, garantindo a segurança necessária para as próximas etapas das operações da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.
A ação não se limitou ao cumprimento de uma ordem. Ela refletiu a essência da formação militar brasileira daquele período: disciplina técnica, coragem diante do imprevisível, resistência física e moral, e a noção clara de que cada posição tomada custava mais que esforço; custava responsabilidade com o avanço de todo o contingente aliado.
O episódio evidencia a tempera do Capitão Lázaro. Sua condução direta, sua insistência em manter a progressão mesmo em terreno minado, sua resistência às pressões da fadiga e do risco imediato revelam o perfil dos combatentes brasileiros que atuaram nos Apeninos e na região do Vale do Pó. Não se trata apenas de bravura, mas de aplicação rigorosa do preparo militar diante de condições extremas.
O avanço até C. Sasso demonstrou a eficiência de uma companhia que, mesmo ferida e extenuada, cumpriu sua missão integralmente. A atuação daquela noite fortaleceu as posições da 1ª DIE e consolidou mais um ponto estratégico no avanço final que, semanas depois, resultaria no colapso das defesas alemãs no norte da Itália.
A história escrita naquela noite é austera, direta e marcada pelo peso dos fatos. A trajetória do Capitão Darcy Lázaro e de sua companhia permanece como exemplo da capacidade brasileira de atuação em combate real, medido não por discursos, mas pelo terreno conquistado em meio às dificuldades mais severas.
Esse episódio, fiel às datas, aos nomes e aos lugares registrados nos documentos militares da FEB, permanece como um retrato transparente da força moral e técnica de seus combatentes. Ele segue ecoando entre os relatos da Segunda Guerra Mundial como lembrança do que significou avançar quando o caminho era desconhecido, minado e marcado pela presença constante do risco. É um marco da disciplina de um comandante e da resiliência de seus homens, preservado na memória daqueles que reconhecem o valor do sacrifício militar no teatro europeu.




