quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Na mira do morteiro - Memória de um soldado Russo

Mikhail Ilitch Shchannikov nascera em novembro de 1923, numa pequena aldeia da região de Górkov. Filho de camponeses, carregava no corpo a marca de uma juventude breve, interrompida pela convocação de agosto de 1942. Tinha dezoito anos quando lhe colocaram nas mãos o tubo frio e pesado de um morteiro, arma que exigia dos ombros mais resistência do que glória. O treinamento em Izhevsk foi rápido, severo, e pouco depois já seguia para o front.



O primeiro batismo de fogo se deu às margens do Don, quando o transporte militar deixou a tropa à espera por quase um mês em Saransk. O tempo de incerteza pesava mais do que o próprio aço do equipamento. Em Stalingrado, Shchannikov viu a guerra na sua forma mais crua: casas viradas em ruínas, corpos soterrados sob os escombros, fumaça que se confundia com o céu. Ele raramente via o inimigo de frente — seu combate era calculado em distâncias, coordenadas, tiros curtos e secos que caíam como martelos em campo aberto.

A rotina era a da lama e do silêncio quebrado pelo estampido. O pelotão recebia ordens rígidas: abrir fogo apenas quando a posição alemã estivesse confirmada. O reconhecimento custava caro, e muitas vezes um camarada tombava antes que a posição inimiga fosse assinalada no mapa. A precisão exigida era quase desumana; um erro de vinte metros podia significar a morte dos próprios companheiros.

Do Don, Shchannikov foi enviado para o Norte, onde o frio da Carélia castigava mais que as balas. Na Linha Mannerheim, erguiam-se fortificações que pareciam intransponíveis. Ali, o morteiro funcionava como instrumento de desgaste: abria fendas nos abrigos de concreto, desalojava posições de metralhadora. O soldado lembrava da neve tingida de negro pela pólvora e de como, sob o céu branco, cada disparo ecoava como trovão. O inimigo resistia com teimosia e o avanço se media em metros, não em quilômetros.

Às vezes chegavam caixas de munição acompanhadas de cartas escritas por operárias de fábricas. Elas assinavam com nomes desconhecidos, mas em cada folha havia versos curtos, desejos de vitória, promessas de reencontro. Para os rapazes congelados no front, aquelas linhas tinham mais calor do que a fogueira improvisada nas trincheiras. Shchannikov guardava uma dessas cartas dobrada no bolso interno da túnica, junto às medalhas que mais tarde receberia.

A disciplina era dura. Oficiais não perdoavam hesitação. Ordens eram transmitidas com a mesma frieza do aço, e quem falhasse no transporte de munições ou na prontidão do disparo sofria castigos imediatos. A guerra não aceitava fraqueza. Ainda assim, entre os homens do pelotão, nascia uma fraternidade feita de silêncio e gestos pequenos: dividir o último pedaço de pão, oferecer a própria manta, carregar o tubo do morteiro do camarada ferido.

Em 1944, durante a ofensiva que abriu caminho para Viborg, Shchannikov recebeu a Medalha por Coragem. O documento oficial registrava seu sangue frio ao manter o fogo mesmo sob contra-ataque inimigo. O jovem de vinte anos não pensava em medalhas, apenas em sobreviver ao próximo bombardeio. Ainda nesse ano ouviu, em ordem lida pelo comandante, o nome de Stalin agradecendo às unidades pela libertação de Elbing. O eco dessas palavras percorria as fileiras como se fosse mais um disparo, invisível, mas certeiro.

Na Carélia, nas florestas cheias de pântanos, o trabalho de Shchannikov era constante. Carregar granadas de mais de dez quilos, montar a peça sob chuva ou neve, calcular ângulos no escuro da madrugada. Muitos soldados caíram ali, sem túmulo, apenas engolidos pela terra encharcada. Ele sobreviveu, mas trazia para sempre a lembrança da noite em que, ao disparar contra uma posição inimiga, viu o clarão iluminar por instantes o rosto de um companheiro morto ao lado.

O fim da guerra chegou sem anúncio festivo. Era 1945, e Shchannikov ainda estava com o pelotão de morteiros. O corpo magro, o uniforme gasto, o olhar endurecido. Tinha atravessado o Don, Stalingrado, Karelia, Viborg, Elbing. Tinha ouvido Stalin, tinha sentido a neve da Finlândia e a poeira da estepe. Voltaria para casa não como herói de bronze, mas como um homem que sabia o peso do tubo de um morteiro, o silêncio após o disparo, e a fragilidade da vida em meio à terra revolvida pela guerra.

OSS 101: A guerra contra a selva

Eles chegaram à Birmânia em 1942, não apenas para enfrentar soldados japoneses. Os homens do OSS Detachment 101 descobriram, logo nas primeiras marchas, que o inimigo mais persistente não usava uniforme. Era a selva úmida, sufocante, viva em cada palmo de chão.

O recrutamento para o destacamento prometia aventura e heroísmo. Na prática, o primeiro combate de cada agente era contra as febres tropicais. A malária rondava como um exército invisível. Bastava uma picada do mosquito para lançar um homem em delírio, febre alta e suor frio. Os relatórios da unidade registravam baixas não só por balas, mas por parasitas. E não havia disciplina que resistisse a semanas de disenteria, quando até o ato de caminhar exigia um esforço que nenhum manual militar previa.

A selva de Assam e do norte da Birmânia parecia conspirar contra os forasteiros. Nos meses de monção, as chuvas transformavam trilhas em rios de lama. A cada passo, o soldado carregava no corpo a sanguessuga que se agarrava à pele sem que ele percebesse. As botas voltavam das marchas cheias de vermes esponjosos, colados entre os dedos, sugando sangue em silêncio.

O calor era outro inimigo. Nos vales baixos, a umidade fazia o uniforme pesar como armadura encharcada. Nos pontos mais altos, a diferença era brutal: o frio das madrugadas no sopé dos Himalaias obrigava os homens a dormir com roupas molhadas, tremendo de febre e medo.

Além das doenças e do clima, a fauna local parecia se mover sob ordens próprias. Cobras kraits e pítons atravessavam os caminhos estreitos. Uma picada significava morte em poucas horas. Um veterano recordaria, décadas depois, que o simples ato de sentar-se na relva exigia olhar três vezes o chão, porque qualquer descuido poderia terminar em encontro fatal com uma naja.

Mas não eram só as cobras. Tigres solitários rondavam os acampamentos. Certa noite, em 1943, um rugido atravessou as barracas improvisadas de bambu e palha. O “cough” do tigre um som gutural, curto e repetido  fazia o OSS lembrar que ali não havia fronteira segura. O animal aproximava-se sem pressa, dono do território, indiferente a rifles ou granadas. Muitos relatos descrevem como os Kachins, aliados nativos, mantinham rituais e fogueiras para afastar o predador, mas sabiam: não era superstição, era sobrevivência.

A selva não poupava ninguém. Havia insetos que devoravam suprimentos, ratos que roíam cabos de rádio, macacos que saqueavam depósitos de arroz. Para os americanos, educados em cidades, o choque era diário: enfrentar a natureza exigia tanto quanto enfrentar o inimigo.

Os comandantes registraram que, em alguns períodos, mais homens estavam deitados em redes com febre do que disponíveis para missões. Cada avanço contra as linhas japonesas era acompanhado por um cálculo paralelo: quantos sobreviveriam à selva?

Essa guerra invisível moldou a disciplina do OSS 101. Não bastava coragem diante da metralhadora japonesa era preciso paciência diante de um enxame de mosquitos, atenção ao som de galhos quebrados no escuro, resignação ao acordar com sanguessugas grudadas nas pernas.

No fim, a selva transformou os homens. Nenhum deles saiu imune. Alguns carregaram pelo resto da vida cicatrizes invisíveis: malária recorrente, estômago destruído por disenteria, pesadelos povoados por rugidos de tigres e sibilos de cobras. A selva era tão parte da guerra quanto o próprio inimigo.

Do banco escolar ao front: a história de Edgar Eisenkolb

 A Segunda Guerra Mundial foi marcada não apenas por generais, planos estratégicos e batalhas decisivas, mas também pelas vozes de jovens que, de repente, se viram arrastados para o conflito. Entre esses relatos, a memória de Edgar Eisenkolb, nascido em 1928, filho de uma família de origem alemã na então Tchecoslováquia, revela a experiência de um adolescente lançado prematuramente ao redemoinho da guerra. Seu testemunho traz à tona as contradições da vida em meio ao nazismo, a realidade da Hitlerjugend, a convocação para a Flak em Leipzig e, finalmente, a dura realidade da prisão em campos de guerra sob americanos e franceses. O percurso de Eisenkolb permite compreender, de forma viva, como o Terceiro Reich moldava destinos individuais e arrastava milhares de jovens para a linha de frente.


Da infância em Reichenberg ao recrutamento forçado

Edgar Eisenkolb nasceu em 1928 na região dos Sudetos, parte da Tchecoslováquia, território disputado e de forte presença germânica. Cresceu em Reichenberg — cidade que hoje leva o nome de Liberec, no norte da atual República Tcheca — em meio à relativa estabilidade da década de 1930. Sua família estava ligada ao comércio de automóveis e ao transporte, num ambiente onde o idioma alemão era predominante e onde a política nazista, aos poucos, começava a exercer influência.

“Eu tinha apenas dez anos quando fui levado à Jungvolk, a prévia da Hitlerjugend. Aos 14, estava oficialmente incorporado à juventude hitlerista”, recordou. Como milhares de meninos alemães ou de origem alemã nos territórios anexados, ele foi empurrado por um sistema que transformava lazer em disciplina militar. O futebol e os passeios de bicicleta foram substituídos por acampamentos, marchas, remo e exercícios paramilitares. As tardes de jogos deram lugar a uniformes marrons e slogans ideológicos.

No início, a rotina parecia festiva para os jovens. Muitos acreditavam participar de algo grandioso, sem compreender o objetivo real de sua formação. Só na adolescência, segundo Eisenkolb, começou a perceber que havia algo de perturbador por trás das marchas e do culto ao Führer. Ainda assim, o processo era automático: depois da escola, vinha a Hitlerjugend, depois o Reichsarbeitsdienst (serviço de trabalho obrigatório), e em seguida a Wehrmacht. Não havia escolha, apenas uma engrenagem que avançava sobre a vida de cada garoto.

Em 1942, com apenas 14 anos, Eisenkolb iniciou atividades junto ao sistema ferroviário em Reichenberg. O trabalho na estação incluía tarefas pesadas, como varrer plataformas e auxiliar nos serviços de manutenção, em meio à movimentação constante de trens que seguiam para Praga, Dresden e outras cidades estratégicas do Reich. O esforço físico era exaustivo, e logo a guerra se impôs de forma mais direta.

Seu pai havia sido convocado como motorista da Wehrmacht e atuava no front oriental, experiência que marcou profundamente a família. Em uma de suas licenças, o pai testemunhou, horrorizado, o embarque de crianças em ônibus selados, que partiam e nunca mais retornavam — evidência dos programas de eutanásia nazistas. “Meu pai me pediu que nunca comentasse o que tinha visto, pois falar poderia nos levar a um campo de concentração”, relatou Eisenkolb. Esse silêncio imposto dentro da própria casa ilustra o clima de medo que dominava até mesmo famílias comuns.


Da Flak em Leipzig à prisão de guerra

No final de 1944, quando a derrota alemã já se desenhava, Eisenkolb foi convocado para servir em Leipzig, numa unidade de Flak — as baterias antiaéreas alemãs. Tinha apenas 16 anos. As armas de 88 mm, conhecidas pelo poder devastador contra bombardeiros aliados, exigiam equipes jovens e disciplinadas. Cada projétil pesava cerca de 25 quilos, e adolescentes como ele eram forçados a lidar com essa carga em meio a ataques aéreos que estremeciam o solo.

“Eu era apenas um garoto e carregava munições que pareciam maiores que eu. O medo era constante. Quando as bombas caíam, a terra tremia e muitos de nós simplesmente desmoronavam de pavor”, confessou. Em Leipzig, Eisenkolb conheceu pela primeira vez a experiência real da guerra: não o treinamento, mas o fogo inimigo, a destruição das cidades e a sensação de impotência diante da máquina de guerra aliada.

Com o avanço das forças soviéticas pelo leste e dos americanos pelo oeste, o front colapsou. Em 1945, Eisenkolb e outros jovens soldados foram feitos prisioneiros. A primeira captura ocorreu sob tropas americanas. Os detentos eram reunidos em grandes campos improvisados, como os da região do Reno, onde milhares de alemães ficaram expostos ao frio, à fome e à insalubridade. “Havia uma vala usada como latrina coletiva. O chão transformava-se em lama, e homens afundavam ali, incapazes de sair. Foi uma visão que nunca esqueci”, relatou.

Posteriormente, os prisioneiros foram transferidos para a zona de ocupação francesa, onde foram colocados sob guarda de tropas coloniais vindas do Marrocos. A fome tornou-se insuportável. Eisenkolb descreveu como jovens, desesperados, mastigavam folhas verdes e cascas de árvores para enganar o estômago vazio. O trabalho forçado em minas de carvão e campos agrícolas passou a ser a nova realidade de milhares de prisioneiros.

Ainda assim, alguns episódios revelaram brechas de humanidade. Um médico sírio a serviço dos franceses ajudou Eisenkolb a simular febre para ser internado em um hospital militar de prisioneiros, evitando que fosse enviado para trabalhos ainda mais brutais. Esse gesto, aparentemente pequeno, salvou-lhe a vida. “Disseram-me para engolir pasta de dente, de modo que o termômetro registrasse febre alta. Isso me tirou do campo e me colocou no hospital”, contou.

Após meses de confinamento, Eisenkolb foi repatriado para a Alemanha, passando por Limburg e Weilburg. Tinha apenas 17 anos, mas carregava cicatrizes físicas e psicológicas de um conflito que havia consumido sua juventude. A experiência da fome, do medo e do silêncio imposto marcou sua vida adulta.


A história de Edgar Eisenkolb não é única, mas ajuda a compreender como a Segunda Guerra não foi feita apenas por generais ou políticos, mas também por jovens comuns, arrastados pela engrenagem de um regime totalitário. De Reichenberg a Leipzig, dos campos de prisioneiros ao retorno à Alemanha, sua trajetória ecoa a de milhares de adolescentes que viram a infância ser devorada pela guerra.


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