sábado, 20 de dezembro de 2025

Novo portal Segunda Guerra Brasil

 



Amigos e apaixonados por história,

É com muito orgulho que anuncio uma nova fase na nossa jornada. O nosso antigo blog cresceu, ganhou corpo e agora se transformou em algo muito maior: apresento a vocês o nosso novo Portal Segunda Guerra Brasil.

Continuamos com a mesma missão de preservar a memória, mas agora com uma estrutura muito mais completa. O blog antigo permanecerá no ar como um arquivo (stand-by), mas todas as novidades, artigos aprofundados e grandes reportagens estarão concentrados no novo endereço.

O que você vai encontrar no Portal?

  • Histórias: Dos fatos mais conhecidos às narrativas obscuras e inéditas.

  • Geopolítica e Estratégia: Análises sobre os movimentos que definiram o conflito.

  • Acervo Pessoal: Memórias, diários e cartas emocionantes.

  • Heróis e Personagens: Biografias detalhadas e o papel das mulheres na guerra.

  • O Brasil no Front: Tudo sobre a nossa participação e a FEB.

Convido todos vocês a explorarem cada seção do novo site e a continuarem fazendo parte desse projeto de resgate histórico.

Acesse agora: segundaguerrabrasil.com.br


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A ARTE DE SOBREVIVER: DENTRO DA MENTE DE UMA PRISIONEIRA DE GUERRA

 O cotidiano tem essa armadilha silenciosa de parecer eterno, até que deixa de ser. Para ela, a ruptura foi abrupta. Estava na rua para resolver pendências triviais quando o som inconfundível de botas marchando contra o solo rompeu a normalidade. Gritos. Confusão. Antes que o cérebro pudesse processar o cenário, ela já estava cercada. O medo ali não era uma ideia abstrata, mas uma presença física, paralisante, que sufocava o raciocínio. Nos olhos dos soldados, nenhuma dúvida ou hesitação. Havia apenas ordens frias e ela se tornara, naquele instante, parte da execução de uma tarefa militar.

Empurrada para a carroceria de um caminhão, o choque inicial deu lugar a uma angústia pulsante. O veículo a levaria, junto a outros desconhecidos, para um destino ignorado. O coração batia descompassado, uma contagem regressiva para o incerto. Perguntas giravam sem resposta. Seria azar? Algum erro cometido? Apenas a realidade gélida da captura respondia. No aperto daquele espaço fechado, o ar era escasso e o cheiro do medo, coletivo. Homens e mulheres compartilhavam o mesmo pavor. Alguns choravam baixo, outros mantinham o olhar fixo no nada, incapazes de absorver o trauma.

A vigilância era absoluta. Cada sussurro ou movimento brusco poderia desencadear consequências fatais. Ali, naquele trajeto rumo ao desconhecido, ela começou a analisar o que deixava para trás: família, amigos, a vida que conhecia. A neblina da incerteza tentava engolir qualquer esperança. Contudo, em meio ao desespero, algo fundamental aconteceu. Uma faísca de determinação acendeu-se. Ela entendeu que precisava resistir. Não apenas por si, mas por aqueles que amava.

A chegada ao campo revelou a face burocrática do horror. Portões pesados, eficiência militar, o frio emanando das estruturas. A individualidade foi desmanchada em filas de identificação. Nomes, idades e dados eram anotados com precisão cirúrgica. Ela percebeu que havia sido engolida por uma engrenagem muito maior que sua existência.

As primeiras horas no cárcere trouxeram a compreensão da nova realidade. Havia medo e confusão, mas também uma leitura rápida do ambiente. Ela observava quem já havia desistido e quem ainda lutava. Identificar quem poderia ajudar e quem representava ameaça tornou-se instinto básico. O desafio não era apenas físico, com o chão duro para dormir e a comida escassa, mas um teste psicológico constante.

A adaptação tornou-se a chave. Ela notou que o ser humano, mesmo nas piores condições, busca normalidade e conexão. Pequenos gestos, trocas de memórias e a formação de laços frágeis ajudavam a suportar o peso dos dias. As tarefas forçadas, fosse na cozinha ou na lavanderia, serviam para manter os corpos ocupados e as mentes controladas, mas também ofereciam oportunidades sutis de utilidade e pequenos ganhos.

Então veio a mudança inesperada.

Numa manhã qualquer, a rotina foi quebrada. Ela foi selecionada, junto a outros, para uma função diferente. O medo voltou com força total. O que queriam? A tarefa revelou-se surpreendente: trabalho administrativo. Lidar com informações, ordenar documentos. Não era o esforço braçal habitual, mas um desafio intelectual que exigia responsabilidade e gerava um perigo silencioso.

A princípio, a desconfiança imperou. Seria uma armadilha? Porém, ela percebeu a oportunidade. Aquela função a colocava numa posição singular. O acesso a informações e a necessidade de usar o intelecto devolveram-lhe uma parcela de dignidade e controle. Era um jogo perigoso de equilíbrio entre a obediência necessária e a preservação da própria identidade. Ela aprendeu a antecipar os humores dos guardas, a ser eficiente sem chamar atenção excessiva e a usar sua posição para obter mínimas vantagens que poderiam significar a diferença entre sucumbir e resistir.

Aquele trabalho burocrático, aparentemente banal, transformou-se em seu escudo. Deu-lhe propósito em meio ao caos. Ela deixou de ser apenas um número passivo para se tornar uma agente ativa de sua própria história dentro daquele sistema opressor.

Quando o conflito finalmente cessou, ela carregava as marcas indeléveis daquela experiência. Mas estava viva. O campo de prisioneiros, com toda sua brutalidade, serviu como uma escola cruel de resiliência. Ela aprendeu que, mesmo quando a liberdade física é roubada, a capacidade de observar, adaptar-se e manter a mente afiada é a última fronteira da sobrevivência humana. Uma lição que moldaria para sempre a mulher que emergiu daqueles portões.

QUANDO O ARNO ATACOU: A NOITE EM QUE A LAMA CALOU OS CANHÕES

 A guerra não espera o tempo firmar. Era o outono de 1944 na Itália e o céu parecia ter decidido lavar os pecados da humanidade com uma fúria líquida e incessante. Para os homens e mulheres do Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, a batalha não era apenas contra os projéteis alemães ou as minas traiçoeiras. Havia um inimigo onipresente, frio e úmido que invadia as botas, as barracas e até a alma dos combatentes. "La piuva e el fango". A chuva e a lama. Esses dois elementos compunham a trilha sonora e o cenário desolador onde o 38th Evacuation Hospital tentava operar o milagre da vida em meio à morte.

Imaginem a cena em uma planície larga nos arredores de Pisa. O terreno era baixo, encharcado, uma esponja saturada que já não absorvia mais nada. Ali, sob a sombra histórica da Torre Inclinada e ao som do bronze místico da Catedral, médicos brasileiros e norte-americanos travavam sua luta diária. A umidade era tanta que os cirurgiões precisavam usar pequenas enxadas para abrir valas ao redor de suas barracas, na esperança vã de manter a água do lado de fora. Mas a água sempre vencia. Ela entrava sorrateira durante a noite, encharcando o chão onde dormiam exaustos os heróis do bisturi. Pela manhã, o despertar exigia calçar galochas para pisar em um espesso lençol líquido. O cheiro era acre, uma mistura de erva podre e fermentação causada pelo pisoteio constante da vegetação submersa.

Aquele 2 de novembro amanheceu sob o signo de Finados e da chuva que não dava trégua. A lama não respeitava nem a sacralidade das salas de cirurgia. Era sobre esse barro viscoso que se abriam tóraxes e abdomens, onde a ciência tentava reparar o estrago feito pelo ódio humano. A penicilina era o único escudo contra a infecção naquele ambiente hostil, um verdadeiro milagre de Fleming contra a sujeira dos campos de batalha. Os canhões troavam nos Apeninos, mas o perigo maior, naquela noite, viria do Rio Arno.

Eram dezoito horas quando o alerta soou, mas soou abafado pela confiança excessiva na engenharia. O Coronel Wood, diretor do hospital, interrompeu o jantar. A notícia era grave: uma tromba d'água havia caído sobre o Arno. O rio transbordara. A ordem, contudo, veio embrulhada em uma tranquilidade perigosa. A engenharia norte-americana garantia que a água não subiria mais do que quarenta centímetros. A recomendação era recolher os pertences, preparar a "cama rolo", pegar o capacete, o cantil e aguardar.

A noite caiu e trouxe com ela a escuridão absoluta. A rede elétrica colapsou. A promessa dos quarenta centímetros foi tragada pela realidade de um dilúvio. Às vinte e duas horas, a espera serena transformou-se em urgência. Caminhões com faróis potentes rasgavam a negrura, retirando pacientes às pressas. O hospital estava sendo engolido. Das barracas, via-se a água correr com a violência de um rio caudaloso, iluminada apenas pelos breves clarões da lua que surgiam entre as nuvens pesadas.

O caos se instalou silenciosamente. Não havia ordens claras, apenas a água subindo e invadindo os abrigos. O Major médico Ernestino Gomes de Oliveira, chefe da seção brasileira, tentou em vão localizar o comando em meio à inundação. Voltou encharcado e sem respostas. A decisão teve que ser tomada ali mesmo, no improviso do desespero: retirar-se. Eram vinte e três horas. Formaram uma coluna humana, um segurando a túnica do outro, tateando no escuro, com a água gelada batendo na cintura, ora subindo, ora descendo conforme as irregularidades do terreno traiçoeiro.

A coluna se partiu na confusão da fuga. Um grupo, liderado pelo Major Ernestino, acabou, por ironia do destino, invadindo um clube de oficiais ingleses, interrompendo uma noite de festividades e provocando a ira dos súditos de Sua Majestade. O outro grupo, sob a orientação do Major Ary Duarte Nunes, onde estava o narrador Edgardo Moutinho dos Reis, seguiu para o destino correto: um prédio inacabado, esqueleto de uma futura escola de paraquedistas.

Ali encontraram o cenário da desolação. O chão era pedra e água. Não havia cadeiras, não havia bancos. As camas disponíveis eram exclusividade dos feridos e doentes resgatados. Em uma pequena sala iluminada, médicos amontoados tentavam se aquecer junto a uma estufa a óleo, tremendo com as roupas encharcadas até os ossos. O frio de novembro cortava a carne. Eram três da manhã do dia 3 de novembro e o corpo humano, mesmo o daqueles acostumados a salvar os outros, gritava por descanso.

A exaustão levou a situações limítrofes. O Capitão Oswaldo Luiz do Rosário, cirurgião e figura de espírito inquebrantável, mantinha-se em solilóquios na sala de cirurgia improvisada. Outros, como o Major Alfredo Monteiro, tentavam repousar em estrados minúsculos de madeira, rentes ao chão úmido. O narrador, vencido pelo cansaço, encontrou uma parede. Afastou as pernas para aumentar a base, inclinou o corpo para trás e dormiu. Dormiu em pé. Algo que jamais acreditaria ser possível em tempos de paz. Acordava sobressaltado, mas a fadiga o empurrava de volta para o sono vertical.

O amanhecer trouxe o sol, mas não trouxe de volta a normalidade. O médico Azevedo Pio, já quase sem voz e gripado, mantinha o ânimo, movendo-se inquieto. O café da manhã chegou às dez horas para reanimar os espíritos. Ao meio-dia, iniciou-se a evacuação dos baixados para Florença. Médicos, enfermeiros e padioleiros, irmanados na desgraça, carregavam as padiolas para os caminhões. Às dezenove horas, não restava mais nenhum paciente. Só então, sujos, fatigados e famintos, os oficiais puderam desabar sobre as camas vagas, envoltos em cobertores manchados de sangue e lama, para um sono de pedra.

O retorno ao acampamento no dia seguinte revelou a outra face triste da guerra: a miséria moral. O hospital submerso havia sido saqueado. Malas, roupas, pertences pessoais, tudo havia desaparecido. A população local, vivendo na penúria absoluta e acostumada aos saques dos alemães, fizera a "limpeza" noturna. O psiquiatra Nelson Bandeira, que conhecia cada palmo daquele alojamento, não encontrou quase nada. Restou aos médicos brasileiros a roupa do corpo e a compreensão amarga de que, na guerra, a necessidade muitas vezes atropela a ética.

Foi preciso recorrer à lavagem das poucas peças que sobraram na Tenuta Real de San Rossori, uma propriedade do rei usada para caçadas. As roupas voltaram úmidas e mal lavadas, pagas com o que valia mais que dinheiro naquelas terras: café e açúcar. O dinheiro italiano perdera o sentido.

Houve, porém, uma breve trégua. Uma permissão para três dias em Florença, a cidade da arte. Partiram em um jeep o Capitão Flávio, o cirurgião Rosário e o psiquiatra Nelson. Instalaram-se no Hotel Pátria, um refúgio de móveis antigos e escadas que rangiam como velhas reumáticas. A cidade estava ferida. Estátuas protegidas por paredes de tijolos, pontes destruídas, o cheiro de mofo nas vielas. Mas havia camas macias, edredons de seda e calefação. Uma noite de sono em um colchão seco parecia um luxo de outro mundo, uma magia inalcançável para quem vivia na lama.

Mas a guerra tem braços longos. Naquela mesma noite, o descanso foi interrompido. Batidas na porta. Era o tenente Soutinho, o anestesista. Com um sorriso amarelo e voz rouca, trazia a ordem implacável de retorno imediato. "Ordens são ordens", dizia ele, enquanto os companheiros, entre gemidos de frustração, trocavam o conforto do edredon pela escuridão do blackout e a chuva miúda que voltava a cair lá fora.

A viagem de volta foi uma odisseia de erros e escuridão. O mapa lido à luz precária de uma lanterna, o "faro" falho do Capitão Rosário que os fez rodar em círculos pelas vielas de Florença, e o medo constante de topar com uma patrulha alemã na estrada 64. Chegaram ao amanhecer, encontrando os companheiros ainda secando as roupas. A ironia final: a ordem de deslocamento urgente fora um equívoco, uma precipitação. Não iriam para outro hospital imediatamente.

Fica o registro da vulnerabilidade. Naquela enchente, não havia patentes ou hierarquias que segurassem a água. Havia apenas homens molhados, lutando para preservar o pouco que lhes restava de dignidade e a vida dos que dependiam deles. O Rio Arno, naquela noite de novembro, lembrou a todos que, mesmo na guerra dos homens, a natureza detém a última palavra. E que a bravura, muitas vezes, é apenas a teimosia de permanecer de pé, mesmo quando o mundo inteiro parece querer nos derrubar.

O Torpedo Kamikaze Japonês

 A Segunda Guerra Mundial trouxe níveis de devastação sem precedentes ao mundo. Entre os inúmeros horrores do conflito, um dos episódios mais trágicos e significativos foi a emergência das forças kamikaze do Japão. Esses jovens pilotos, muitos mal saídos da adolescência, foram lançados em missões suicidas que personificavam a desesperança de um império à beira do colapso. As histórias desses homens, como a de Imanishi Taichi, são testamentos silenciosos de uma nação à beira do abismo.

Em 1944, enquanto o Pacífico ardia sob os fogos implacáveis da guerra, o Japão se viu encurralado. O conflito, antes confinado a ilhas e mares distantes, aproximava-se agora das cidades japonesas, ameaçando tudo o que restava do outrora poderoso império. Numa tentativa desesperada de reverter a maré dos acontecimentos, a marinha japonesa introduziu uma arma nova e terrível: o torpedo humano, ou kaiten.

Imanishi Taichi, um graduado de 25 anos da Universidade Keio com formação em comércio internacional, tinha sonhos que se estendiam para além das fronteiras do seu país. Ele queria explorar o mundo, aprender línguas e, talvez, um dia, trabalhar no comércio global. Seus sonhos, no entanto, foram interrompidos pela realidade brutal da guerra. Após ingressar na marinha, foi designado para uma das unidades mais secretas e temidas: os pilotos de kaiten.

O kaiten era uma arma macabra e engenhosa. Tratava-se de um torpedo modificado, projetado para ser pilotado por um homem. O piloto, confinado num espaço claustrofóbico de pouco mais de um metro de diâmetro, era selado dentro do dispositivo sem visibilidade externa, encarregado de guiar o torpedo diretamente contra um navio inimigo. O impacto resultante não deixava qualquer chance de sobrevivência para o piloto.

Imanishi, como muitos outros, foi treinado numa base secreta na costa japonesa. A base era um lugar de sombras e silêncio, onde jovens entre 18 e 20 anos se preparavam para a sua missão final. Treinavam dia e noite, rodeados por um ambiente que misturava o medo da morte com o desejo de cumprir o dever para com o país e as suas famílias.

Em suas cartas para casa, Imanishi expressou o peso dessa escolha. Escreveu ao pai e à irmã mais nova, falando dos seus sentimentos conflitantes. "Quero me casar", confessou ao pai, referindo-se a uma mulher que amava profundamente. "Mas este laço será curto, pois estou destinado a algo maior do que a minha própria felicidade."

Imanishi não queria morrer. O seu desejo de viver era evidente nas suas palavras, mas a pressão para cumprir o que via como o seu dever era maior. "Não é que eu queira morrer", escreveu, "mas não tenho escolha. Se for para o bem do meu país, aceitarei o meu destino."

Em 8 de novembro de 1944, Imanishi recebeu ordens para partir. Despediu-se dos seus superiores, vestiu o uniforme e preparou-se para a sua missão final. Em 20 de novembro, às 4h54 da manhã, o seu kaiten foi lançado de um submarino japonês no Pacífico. Menos de uma hora depois, uma grande explosão ecoou nas profundezas do oceano. O número exato de navios afundados pelos kaiten é desconhecido, mas estima-se que cerca de 6.000 jovens perderam a vida em missões kamikaze.

O sacrifício desses jovens permanece como uma das histórias mais comoventes da Segunda Guerra Mundial. Eles, que cresceram num país emaranhado num conflito desesperado, foram forçados a abandonar os seus sonhos e futuros por um ideal que, no final, não pôde ser alcançado. As suas vozes, muitas vezes abafadas pela narrativa heroica imposta pelo regime, ecoam através das décadas como um lembrete sombrio dos custos humanos da guerra.

Imanishi Taichi foi apenas um entre milhares que seguiram este caminho. Cada um desses jovens deixou para trás uma vida de promessas, uma família e, em muitos casos, amores não realizados. Embarcaram nas suas missões sabendo que não voltariam, carregando não apenas explosivos, mas também os sonhos e esperanças de uma geração inteira.

Estas missões suicidas, que surgiram como uma última tentativa desesperada de defender o Japão, serviram apenas para intensificar o horror da guerra. O uso de kaiten, bem como de aviões kamikaze, refletia a situação desesperadora em que o Japão se encontrava.

Fortes Maunsell: Guardiões da Linha Vital de Londres

 No cenário sombrio e devastador da Segunda Guerra Mundial, a defesa das nações tornou-se uma questão de sobrevivência absoluta. Para o Reino Unido, cuja capital, Londres, estava sob ameaça constante de bombardeios alemães, a necessidade de proteger suas rotas de suprimentos era vital. Foi nesse contexto que surgiram as imponentes fortificações conhecidas como Fortes Maunsell, estruturas que permanecem de pé até hoje, erguendo-se como sentinelas enferrujadas no Mar do Norte, contando um capítulo pouco conhecido da guerra.

Projetados pelo engenheiro civil britânico Guy Maunsell, os fortes foram construídos no início da década de 1940 com o objetivo de proteger a entrada do Rio Tâmisa, uma artéria crucial para a sobrevivência de Londres. A capital dependia de um fluxo constante de suprimentos, e a Marinha Britânica enfrentava o desafio de manter essa rota aberta, segura contra minas marítimas e a ameaça constante dos bombardeiros da Luftwaffe. Assim, a defesa da entrada do Tâmisa assumiu uma importância estratégica sem precedentes.

Essas estruturas, conhecidas como "fortes marítimos", eram formadas por torres de concreto e aço, sustentadas por pilares que se elevavam a 24 metros acima do mar. À distância, assemelhavam-se a cidades fantasmas, solitárias e ameaçadoras, desafiando os elementos e os perigos da guerra. Sete dessas fortificações foram construídas, cada uma equipada com canhões QF de 99mm e metralhadoras que varriam o céu em busca de aviões inimigos.

Os Fortes Maunsell desempenharam um papel crucial na defesa aérea de Londres, derrubando um total de 22 aeronaves alemãs e 30 mísseis V-1, armas que visavam não apenas o moral, mas a sobrevivência do povo britânico. Esses mísseis, lançados em massa, representavam uma nova forma de terror, uma ameaça que descia dos céus com precisão mortal. No entanto, os soldados britânicos estacionados nessas torres enfrentaram o inimigo com determinação feroz, comprometidos em proteger sua pátria a todo custo.

Os relatos daqueles que serviram nos Fortes Maunsell são marcados por uma sensação de isolamento e vigilância constante. “Era como estar no fim do mundo”, recorda um soldado que serviu lá, “nós éramos os guardiões da última linha de defesa, e não havia para onde correr se algo desse errado”. Essa sensação de estar em uma fortaleza isolada, cercada pelo mar revolto e pelo zumbido incessante dos motores inimigos, apenas aumentava a pressão psicológica sobre esses homens.

Após o fim da guerra, os fortes foram gradualmente abandonados pelo Exército Britânico. Na década de 1950, tornaram-se refúgios para as então populares estações de rádio pirata, que exploravam o fato de essas estruturas estarem localizadas em águas internacionais, fora do alcance da lei britânica. O legado militar dos fortes foi, por um breve período, substituído pela rebelião cultural da juventude da época.

No entanto, em 1967, uma mudança na legislação britânica pôs fim à festa dos piratas do ar, e as estruturas foram novamente abandonadas, deixadas à mercê das ondas e do tempo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O Médico, a Neurose e a Tragédia no Castelo

 Uma passagem peculiar, quase tragicômica, ocorreu envolvendo o Capitão Mirandolino Jose Caldas, um médico psiquiatra convocado pela Força Expedicionária Brasileira. Caldas era um oficial competente, mas pitoresco, como muitos de sua especialidade. Ele defendia uma teoria ousada e, para muitos, bizarra: para tratar os soldados portadores de neuroses e problemas psíquicos adquiridos no front, eles deveriam permanecer próximos à frente, ouvindo o barulho das granadas, como parte de uma terapia de habituação.

Caldas conseguiu convencer a chefia e ocupou um pequeno castelo do outro lado da Praça de Porreta para instalar seus pacientes. A teoria colapsou sob o peso do ferro e da pólvora.

Um dia, o castelo foi "acertado". A investida culminou na morte de um sargento. A ordem de evacuação foi imediata. Durante a noite, o Tenente Newton Gabriel de Souza, comandante do 2º Pelotão de triagem, recebeu o comando do Capitão Vaz para retirar os homens daquele local de risco.

O Capitão Mirandolino, antes da tragédia, protagonizou um episódio que virou piada de quartel. Costumava levar os pacientes para banhos nas termas de Porreta. Colocava-os em formação rígida, coluna por três, marchando pela praça, com ele à frente, marcando o passo. Em uma dessas ocasiões, a praça foi alvo de um intenso ataque de artilharia, com várias granadas caindo ao redor. O médico olhou para trás e viu uma cena inacreditável: todos os soldados estavam rastejando, buscando freneticamente a proteção do solo. Ele era o único em pé.

Um psiquiatra, tentando curar a neurose da guerra, ironicamente o único a desafiar o instinto de sobrevivência no meio do bombardeio. Um episódio que, para a tropa, era apenas uma "coisa de psiquiatra". Mas, para a História, é a prova de que a linha entre a bravura e a insanidade era tênue na frente de batalha.


Baseado no relato do General-de-Divisão Médico Geraldo Augusto D’Abreu (História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial).

AS DIVISÕES NEGRAS DE STALIN: O segredo dos prisioneiros que marcharam do Gulag para a morte em 1941.

 A Cor da Redenção: Quando os Condenados de Stalin Tornaram-se a Última Esperança da Rússia

É o verão de 1941. A máquina de guerra alemã avança impiedosa pelas estepes russas, esmagando tudo o que encontra pela frente. Nos relatórios de inteligência da Wehrmacht, no entanto, surge uma informação perturbadora, um detalhe que foge à lógica militar convencional. Os alemães começam a notar a presença de unidades estranhas no front. Não são soldados comuns. Eles não vestem o cáqui tradicional do Exército Vermelho. Eles não portam insígnias. Eles lutam vestidos com uniformes de trabalho pretos, gastos pelo tempo e pelo sofrimento.

Quem são esses homens? De onde eles vêm?

Durante décadas, a história oficial soviética manteve um silêncio sepulcral sobre a identidade desses combatentes. Mas documentos e memórias censuradas, resgatados das sombras do passado, revelam agora a verdade brutal sobre as chamadas "Divisões Negras".

No momento de maior desespero, quando as divisões regulares eram dizimadas pela Luftwaffe e pela Wehrmacht, Joseph Stalin tomou uma decisão drástica. Ele voltou seus olhos para a Sibéria. Não para buscar tropas de elite, mas para abrir os portões do inferno gelado do Gulag.

O General Kalinine, em suas memórias de guerra, deixa escapar a gênese desse exército de sombras. Em julho de 1941, ele recebe uma ordem direta do Kremlin: ceder o comando de seu exército e partir para a imensidão da taiga virgem. Sua missão? Organizar dez novas divisões em uma colônia de lenhadores. Em pouco tempo, cerca de 130.000 homens são reunidos. Não são recrutas. São prisioneiros. São os esquecidos do sistema.

Para o ditador soviético, os campos de concentração siberianos tornaram-se um reservatório inesgotável de "carne para canhão". Eram homens habituados à disciplina draconiana, calejados pelo frio e pela fome, organizados em brigadas de trabalho que funcionavam como pelotões. A maioria já havia cumprido serviço militar antes de cair em desgraça. Eram a matéria-prima perfeita para uma guerra de atrito.

Eles chegaram ao front sem tempo para trocas de uniforme. Marcharam para a batalha vestindo o que tinham: as blusas civis, as "Kasovorotka", e as jaquetas acolchoadas pretas — as Telogreika ou Vatovik — que lhes valeram o apelido sombrio de "Divisões Negras" entre os alemães. Nos pés, botas de couro sintético; nas mãos, fuzis Mosin de 1891, armas da Primeira Guerra Mundial retiradas às pressas dos depósitos, ou fuzis Mauser capturados dos poloneses anos antes.

Mas o que leva um homem, traído e aprisionado pelo seu próprio país, a lutar com tanta ferocidade por ele?

É aqui que reside o mistério da alma russa. Esses prisioneiros políticos e comuns não odiavam Stalin. Eles acreditavam, com uma fé quase religiosa, que seu destino funesto era um erro burocrático, culpa de algum pequeno funcionário do NKVD, e não do líder supremo. Eles viam no campo de batalha não a morte, mas a chance de redenção. A oportunidade de lavar seus supostos crimes com o próprio sangue.

Entre eles, estavam não apenas soldados rasos, mas oficiais brilhantes que as purgas de 1937 haviam varrido do mapa. O mais notável deles, o Marechal Konstantin Rokossovski. Antes de comandar a 16ª Armada Transbaikal, Rokossovski sentiu na pele o frio do Gulag. Sua armada foi composta, em grande parte, por seus antigos companheiros de infortúnio.

Em suas memórias, Rokossovski deixaria registrada uma lição de humanidade nascida na brutalidade: "A vida me convenceu de que se pode confiar até mesmo em alguém que já cometeu infrações à lei. Se permitirmos a tal homem resgatar sua falta, o bem triunfará e o amor à pátria fará dele um bravo soldado".

As "Divisões Negras" foram o escudo improvisado que a Rússia ergueu quando tudo parecia perdido. Homens sem nome, sem patente e sem glória, que saíram da escuridão do cárcere para o fogo da guerra, provando que, às vezes, os maiores heróis são aqueles que a história tentou apagar.

PEARL HARBOR SOB O OLHAR DE UMA ENFERMEIRA: O DOMINGO QUE MUDOU A HISTÓRIA

 A tranquilidade tropical do Havaí escondia o cenário da catástrofe iminente. Para a Tenente Ruth Erickson, do Corpo de Enfermeiras da Marinha dos Estados Unidos, a jornada até aquele ponto havia sido marcada por uma mistura de dever militar e aventuras exóticas. Tudo parecia seguir o ritmo compassado da vida militar em tempos de paz relativa. Após manobras e um período de descanso em Charlotte Amalie, nas Ilhas Virgens, a rota deveria levar a frota para Nova York. O destino, contudo, tinha outros planos. Em Norfolk, Virgínia, as ordens mudaram drasticamente diante dos rumores de que o Japão "afiava o sabre". Os navios reabasteceram e retornaram à Costa Oeste. O navio Relief foi o último a cruzar o Canal do Panamá, cujas comportas operavam dia e noite, seguindo para San Pedro, na Califórnia.

A vida de Ruth Erickson sofreu nova alteração em 8 de maio de 1940. Ela recebeu ordens para se apresentar ao Hospital Naval de Pearl Harbor, no Havaí, após o fim das manobras de primavera da frota. Era o início de mais um capítulo em sua vida. Sob o comando do Capitão Reynolds Hayden e com a senhorita Myrtle Kinsey chefiando o serviço de enfermagem, Ruth reencontrou a supervisora do centro cirúrgico, senhorita Winnie Gibson. A rotina era paradisíaca. As enfermeiras desfrutavam de quartos confortáveis, chá gelado e abacaxi fresco sempre à disposição. Os turnos eram bem definidos e permitiam momentos de lazer nas praias, piqueniques e danças ao som de melodias havaianas sob o céu estrelado do hotel Royal Hawaiian.

A normalidade, entretanto, começou a ruir fisicamente antes mesmo do ataque. Uma semana antes do fatídico dia, os alojamentos das enfermeiras foram esvaziados para dar lugar a uma doca seca. Elas foram realocadas para uma estrutura provisória em forma de "E", do outro lado da rua do hospital. Com a frota do Pacífico transferida de San Diego para Pearl Harbor, o hospital operava em capacidade máxima. Ruth Erickson trabalhou no sábado, 6 de dezembro, até as dez da noite. O domingo seria seu dia de folga.

Naquela manhã de domingo, Ruth e algumas colegas tomavam um café tardio no refeitório quando o rugido de aviões quebrou o silêncio. Acreditavam ser os pilotos de Ford Island em treinamento. O engano durou pouco. Sons estranhos e o voo rasante de uma aeronave sobre o alojamento revelaram a verdade. Ruth correu para a janela e viu o sol nascente pintado sob a asa do avião. O inimigo estava ali. O piloto voava tão baixo que era quase possível distinguir seus traços através dos óculos de proteção. Ele poupava munição para os navios de guerra alinhados logo abaixo: o California, o Arizona e o Oklahoma.

O telefone tocou. A enfermeira-chefe Gertrude Arnest foi direta ao ordenar que todas vestissem os uniformes imediatamente, pois aquilo era real. Enquanto trocava de roupa, Ruth percebeu que o dia virara noite. A fumaça dos navios em chamas escurecia o céu. Ao atravessar a rua rumo ao hospital, ela correu sob uma chuva de estilhaços. O choque a paralisou por uma fração de segundo na varanda, sentimento compartilhado por alguns médicos ao redor.

A urgência exigia ação. A sala de curativos ortopédicos estava trancada e a busca pelas chaves na mesa do Oficial do Dia pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente entraram, encheram recipientes com água e prepararam os instrumentos, aproveitando que a eletricidade e o abastecimento de água ainda funcionavam. O Dr. Clyde W. Brunson, chefe de medicina, viu seus planos de jogar golfe desaparecerem para sempre.

O primeiro paciente chegou às oito e vinte e cinco da manhã. Trazia um ferimento grave no abdômen e sangrava muito. Ruth jamais esqueceria o tremor nas mãos do Dr. Brunson ao tentar iniciar uma transfusão. O paciente faleceu em menos de uma hora. Em seguida, começou o fluxo interminável de queimados. Marinheiros do USS Nevada, que encalhara perto dali no Hospital Point, nadaram através de águas cobertas por óleo denso. Como usavam o traje tropical de camisetas brancas e shorts, as queimaduras eram severas nas áreas expostas do corpo. A equipe médica improvisou, utilizando pulverizadores de inseticida cheios de ácido tânico para tratar as lesões e administrando sedativos para a dor intensa.

Em meio ao caos, um avião japonês abatido atingiu a quadra de tênis e arrancou um pedaço do laboratório adjacente, matando as cobaias, o que deixou o patologista-chefe, Dr. Shaver, consternado. O trabalho não parou. Um médico, ainda convalescendo de uma cirurgia renal feita dias antes, levantou-se do leito para ajudar.

Ao anoitecer, o medo tornou-se palpável. Ruth retornou ao serviço às oito da noite em uma ala cirúrgica que operava com lanternas e janelas vedadas com papel preto. Por volta das dez ou onze horas, o som de aviões provocou pânico. Joelhos tremiam e pacientes clamavam pelas enfermeiras. Eram, na verdade, aviões americanos, mas a tensão era absoluta. Ruth passou o resto da noite no porão do hospital, onde famílias dos oficiais se abrigavam amontoadas.

A calmaria do dia seguinte revelou a devastação, embora a fumaça impedisse uma visão clara de Ford Island. A rotina de guerra se instalou até a noite de 17 de dezembro, quando Ruth recebeu ordens de partida imediata. Sem saber o destino, ela e as enfermeiras Lauretta Eno e Catherine Richardson vestiram seus uniformes de ala, capas e chapéus de feltro azul. Foram levadas ao cais em Honolulu para embarcar no navio a vapor President Coolidge, transformado em transporte de feridos.

O navio partiu na tarde do dia 19, integrando um comboio que navegava em zigue-zague e no escuro total para evitar submarinos. Rumores de periscópios na água eram constantes. O mar revolto e a ventilação precária devido às escotilhas lacradas tornaram a viagem penosa. O destino final foi São Francisco, onde chegaram na manhã de Natal com 124 pacientes. Um havia falecido na noite anterior à chegada.

A operação foi mantida em segredo absoluto. Não houve notícias nos jornais. A Cruz Vermelha aguardava com café e donuts, um contraste acolhedor após dias de tensão no mar. Em Mare Island, um médico que servira no USS Arizona meses antes perguntou a Ruth o que havia acontecido, pois ninguém sabia de nada. O silêncio da censura imperava, mas a memória de Ruth Erickson guardava os detalhes vívidos do dia em que o paraíso ardeu em chamas.

O DILEMA DOS ANDES: A BOLÍVIA ENTRE A HUMILHAÇÃO DO CHACO E A SOMBRA DO TERCEIRO REICH

 Para compreender a posição da Bolívia durante os anos tormentosos da Segunda Guerra Mundial é necessário realizar um exercício de recuo histórico. Não se pode olhar para La Paz na década de 1940 sem antes observar as feridas abertas apenas cinco anos antes. É um intervalo de tempo curto demais para o esquecimento e brutal demais para a cicatrização. O que encontramos ao analisar esse cenário é uma nação que, ao ver o mundo entrar em chamas, ainda tentava se levantar das cinzas de sua própria catástrofe recente.

Estamos falando da sombra incontornável da Guerra do Chaco.

É impossível dissociar o comportamento boliviano no cenário global do trauma sofrido entre 1932 e 1935. A derrota para o Paraguai não foi apenas um revés militar ou uma perda territorial. Foi um golpe na psique nacional e, fundamentalmente, na espinha dorsal das forças armadas do país. Quando os canhões da Segunda Guerra começaram a ecoar na Europa, a Bolívia vivia o rescaldo imediato desse conflito vizinho. A sociedade e a estrutura de poder ainda respiravam a atmosfera de derrota.

Mas é ao olharmos para dentro dos quartéis bolivianos que encontramos a chave para entender a complexidade deste momento histórico. É aqui que a análise precisa ser cirúrgica. Não se trata apenas de um exército derrotado, mas de um exército que buscava desesperadamente uma identidade e um modelo de eficiência para se reerguer. E onde eles foram buscar esse modelo? A resposta nos leva diretamente ao coração da Europa e a um nome específico que moldou a mentalidade da oficialidade boliviana: o General Hans Kundt.

A presença de Kundt não foi um detalhe de rodapé. Foi estrutural. O exército da Bolívia havia sido treinado por este general alemão e isso teve implicações profundas que reverberaram muito além dos campos de batalha do Chaco. O que Kundt trouxe para os Andes foi a disciplina prussiana. Ele incutiu nos militares bolivianos não apenas táticas de guerra, mas uma forma de ver o mundo, uma admiração pela ordem, pela hierarquia rígida e pela eficiência marcial que a Alemanha representava.

Quando observamos a alta oficialidade do exército boliviano no prelúdio da Segunda Guerra, o que vemos é um corpo militar moldado à imagem e semelhança de seus instrutores germânicos. A consequência direta desse treinamento foi a criação de uma classe de oficiais que olhava para a Alemanha não como um inimigo distante, mas como um ideal a ser alcançado. Havia uma admiração genuína, quase reverente, pela disciplina que emanava de Berlim.

É fundamental entender a gravidade disso. Enquanto o mundo se dividia, grande parte da elite militar boliviana nutria simpatias claras pela Alemanha nazista. Para esses homens fardados, que haviam aprendido a marchar e a pensar sob a tutela de Kundt, Hitler não representava necessariamente o horror que os jornais democráticos descreviam, mas sim a encarnação máxima daquela força militar prussiana que eles foram ensinados a idolatrar. A Alemanha era a referência de poder e recuperação nacional, algo que a Bolívia, humilhada pelo Paraguai, desejava desesperadamente para si.

No entanto, a geopolítica é feita de realidades duras e não apenas de simpatias ideológicas. E é neste ponto que nos deparamos com o grande paradoxo boliviano daquele período.

Se o coração dos generais batia em compasso com as marchas militares de Berlim, o estômago da nação dependia inteiramente de Washington. Esta é a contradição central que define a Bolívia na Segunda Guerra. O país vivia um enorme e perigoso conflito interno. De um lado, tínhamos uma casta militar poderosa, ressentida pela derrota no Chaco e ideologicamente alinhada com o Eixo, vendo na Alemanha o modelo de força que lhes faltava. De outro lado, havia a fria necessidade econômica gerida pelo governo.

A realidade impunha uma condição inegociável: a Bolívia precisava vender seus minérios. E quem comprava esses minérios? Quem tinha o capital e a logística para sustentar a economia boliviana através dessas exportações? Os Estados Unidos da América.

O cenário que se desenha é de uma tensão extrema. O governo boliviano se via preso em uma armadilha diplomática e econômica. Precisava, por uma questão de sobrevivência financeira, manter o fluxo de minérios para a indústria bélica norte-americana. A venda dessas matérias-primas era o que mantinha o Estado funcionando. Cortar laços com os Estados Unidos em nome de uma afinidade ideológica com a Alemanha seria suicídio econômico. Mas ignorar a vontade e a inclinação dos seus próprios militares era suicídio político.

Podemos imaginar as reuniões a portas fechadas em La Paz. De um lado, a pressão dos diplomatas americanos exigindo garantias de fornecimento e lealdade hemisférica. Do outro, o murmúrio nos corredores dos quartéis, onde oficiais de botas lustradas, ainda sob a influência doutrinária de Hans Kundt, celebravam os avanços de Hitler na Europa.

Este conflito interno paralisava e moldava as decisões do Estado. Não era apenas uma questão de escolher um lado na guerra global. Era uma questão de gerenciar uma fratura exposta dentro da própria casa. O governo tinha que caminhar sobre o fio da navalha, equilibrando a dependência vital do mercado norte-americano com o risco real de um levante militar protagonizado por oficiais que sonhavam com uma Bolívia prussiana.

A derrota na Guerra do Chaco funcionou como um catalisador para esse sentimento. A humilhação sofrida diante do Paraguai fez com que a busca por uma "força regeneradora" se tornasse ainda mais atraente. Para muitos oficiais, a democracia liberal não havia trazido a vitória; pelo contrário, estava associada à fraqueza e à desordem que levaram ao desastre militar. A Alemanha nazista, aos olhos dessa oficialidade treinada por Kundt, oferecia uma alternativa de vigor e disciplina.

Portanto, ao analisarmos a Bolívia na Segunda Guerra, não podemos nos limitar a ver quem comprou ou vendeu o quê. Precisamos olhar para a alma dividida do país. Precisamos entender que a sombra da Guerra do Chaco ainda cobria tudo, obscurecendo a visão e alimentando ressentimentos. O fator alemão não era algo externo, importado apenas pelos jornais. Ele estava dentro do exército, enraizado pelo treinamento de Hans Kundt.

Era uma nação onde a economia apontava para o Norte, em direção aos Estados Unidos, mas onde muitos dos homens que detinham as armas apontavam suas bússolas morais para o Leste, em direção à Alemanha. Esse choque entre a necessidade material de vender minérios aos americanos e o desejo ideológico de emular os alemães criou uma atmosfera de instabilidade permanente.

O drama boliviano na Segunda Guerra não foi travado nas trincheiras da Europa, mas sim na mente dos seus governantes e militares. Foi uma batalha silenciosa entre o pragmatismo da sobrevivência econômica e a sedução do totalitarismo militarista. Uma batalha travada sob a longa e escura sombra de uma guerra perdida cinco anos antes, cujos fantasmas ainda assombravam os corredores do poder em La Paz. É a história de um país tentando encontrar seu lugar no mundo enquanto lutava contra seus próprios demônios internos, preso entre a admiração por um império distante e a dependência de um vizinho continental.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A IMAGEM ETERNIZADA E O ADEUS PREMATURO DA CABO VERA JOHNSON: UMA TRAGÉDIA EM BURY

 Era o final de abril de 1945. A Europa respirava, ainda que com dificuldade, os ares de uma paz iminente que colocaria fim ao conflito mais sangrento da história humana. No entanto, longe das frentes de batalha continentais, na cidade industrial de Bury, no Reino Unido, desenrolava-se um drama pessoal e silencioso que contrastava com a celebração global que se avizinhava. Esta é a história da Cabo Vera Johnson, número de serviço 2698216, uma mulher cuja contribuição para a Força Aérea Auxiliar Feminina ficou marcada não apenas pelo serviço prestado, mas por uma obra de arte e por um desfecho médico trágico e questionável.

Para compreender a trajetória de Vera, precisamos voltar ao início do século vinte, mais precisamente ao dia 28 de abril de 1917, em Radcliffe, Lancashire. Vera nasceu em um mundo em transformação, filha de Alma Johnson e Eunice Paul. É interessante notar o contexto familiar sólido em que ela veio ao mundo. Seus pais haviam se casado na Igreja de St. Mary, em Radcliffe, sete anos antes, em 1910. O pai, Alma, sustentava a casa como supervisor de teares, uma profissão que denotava a forte vocação têxtil da região. A família, que incluía ainda o irmão de Vera, Harry, residia na Ainsworth Road.

Os registros censitários de 1921 nos mostram a família Johnson vivendo na Knowles Street, em Radcliffe. Nessa época, o pai de Vera havia transitado para o setor de vendas, atuando como viajante comercial para a Henry F. Cockill & Sons, uma fabricante especializada em correias de couro e têxteis. A vida, contudo, impôs seu primeiro golpe duro à jovem Vera em fevereiro de 1932. Alma faleceu em Bury com apenas 45 anos de idade. Vera era, então, uma adolescente que precisou amadurecer diante da ausência paterna.

Ao avançarmos para o dia 29 de setembro de 1939, data da compilação do Registro Nacional, encontramos uma Vera já adulta, vivendo com a mãe, Eunice. Elas residiam na casa de Arthur Taylor, um parente, situada na Fountain Street, em Bury. O documento nos revela um detalhe crucial sobre a vida profissional de Vera antes da farda. Ela trabalhava como "fita de borracha para balões de barragem", empregada pela Dunlop Rubber Company em sua fábrica de balões em Gaythorn, Manchester. Esse detalhe profissional não é apenas uma curiosidade burocrática, pois se revelaria fundamental para o papel que ela desempenharia no esforço de guerra britânico. Posteriormente, mãe e filha mudaram-se para a Palace Street, também em Bury.

O chamado para servir ao país foi atendido em 1940. Vera Johnson alistou-se na Women’s Auxiliary Air Force, a força auxiliar feminina da RAF. Sua experiência prévia na Dunlop não foi desperdiçada pelas autoridades militares. Em 1942, encontramos Vera lotada no Centro de Balões de Barragem Número 6, na RAF Wythall, em Worcestershire. A responsabilidade dessa unidade era imensa, pois cabia a eles a defesa aérea, por meio de balões, de uma área de aproximadamente 600 milhas quadradas que cobria o sul de Birmingham e Coventry. As habilidades manuais e técnicas que Vera adquiriu na vida civil foram, sem dúvida, um ativo valioso na manutenção desses gigantes infláveis que protegiam os céus britânicos contra os bombardeiros inimigos.

Foi durante seu tempo em Wythall que a figura de Vera transcendeu os registros militares para entrar na esfera da arte. A renomada pintora Dame Laura Knight a retratou em sua obra intitulada "In For Repairs". No quadro, Vera aparece reparando um balão de barragem, eternizada em óleo sobre tela, executando com precisão a tarefa vital de manter o equipamento pronto para o combate. Além de sua competência técnica, Vera demonstrava versatilidade e espírito de corpo ao atuar como porta-maça da Banda da WAAF, estabelecida na mesma base de RAF Wythall.

À medida que a guerra caminhava para seus estágios finais, a carreira de Vera progredia. Ela alcançou a patente de Cabo e foi transferida para a Escola de Rádio Número 1, na RAF Cranwell, em Lincolnshire. Ali, a missão era formar operadores de telegrafia sem fio e fornecer treinamento técnico para aprendizes de engenharia em áreas críticas como eletrônica e radar. Vera era parte integrante da engrenagem de comunicação e defesa que sustentava a superioridade aérea aliada.

No entanto, o destino reservava um capítulo doloroso justamente quando a guerra se aproximava do fim. Em 19 de abril de 1945, a Cabo Vera Johnson retornou a casa, em Bury, para um período de nove dias de licença. O que deveria ser um momento de descanso e reencontro familiar transformou-se rapidamente em um pesadelo médico. Na segunda-feira seguinte, dia 23 de abril, ela começou a se queixar de dores no pescoço.

O diagnóstico inicial apontou para caxumba. Tratava-se, infelizmente, de um erro de avaliação. A condição de Vera deteriorou-se de forma alarmante nos dias subsequentes. Em 27 de abril, ela foi admitida na Enfermaria de Bury, mas já era tarde para reverter o quadro. Vera faleceu no dia seguinte, 28 de abril de 1945, exatamente no dia em que completava 28 anos de idade. A causa da morte, conforme atestado, foi asfixia provocada por um abscesso.

A morte de uma jovem militar em solo pátrio, longe do fogo inimigo e sob cuidados médicos, gerou questionamentos sérios. O inquérito subsequente sobre o óbito de Vera ouviu críticas contundentes aos médicos envolvidos no caso. O foco das críticas recaiu sobre o diagnóstico incorreto inicial e os atrasos fatais no tratamento adequado. O veredito do legista foi de "infortúnio", ou morte acidental, o que tecnicamente isentou a equipe médica de culpa criminal direta, mas a observação final do oficial foi cortante. Ele notou que o caso revelou "um conjunto de circunstâncias muito infeliz".

Hoje, a memória da Cabo Vera Johnson repousa no Cemitério de Bury, em Redvales, sob os cuidados da Commonwealth War Graves Commission. A inscrição escolhida por sua família para a lápide resume a dor da perda prematura e o afeto que ela despertava em vida: "Mais querida para nós do que as palavras podem dizer, foi aquela que perdemos e amamos tão bem". Sua história permanece como um testemunho não apenas do serviço feminino na Segunda Guerra Mundial, mas também da fragilidade da vida, mesmo quando a paz parecia finalmente ter chegado.

O Policial Paulista Que Salvou um Pracinha na Itália e Foi Multado — A Incrível História de João Gueldini

 Em 10 de outubro de 1919, na tranquila cidade de Leme, interior de São Paulo, nascia João Gueldini, o sétimo de onze filhos de Tereza Nava e Pedro Gueldini. De origem simples, herdou dos pais a força do trabalho e o senso de dever. Desde jovem, mostrou vocação para servir. Aos 18 anos, em 1937, ingressou na Polícia Militar do então Distrito Federal, no Rio de Janeiro, onde permaneceu por cinco anos, servindo em unidades de tradição histórica, ligadas aos tempos da Guerra do Paraguai.

Depois de deixar a corporação, teve breve passagem pela Marinha Mercante e retornou a São Paulo, instalando-se na capital. Trabalhou em uma padaria no Largo do Arouche, no coração paulistano, e conciliava o serviço com o gosto pelas corridas. Nos anos de 1942 e 1943, participou da tradicional São Silvestre, alcançando boas colocações.

O Brasil vivia um momento de virada. Em agosto de 1942, o país declarou guerra às potências do Eixo após o afundamento de diversos navios mercantes brasileiros. O mundo estava em chamas e o país, ainda em formação industrial e militar, seria chamado a provar seu valor. Gueldini, fiel à sua vocação, não hesitou. Em 7 de agosto de 1943, ingressou voluntariamente na Guarda Civil Bandeirante, assumindo o posto de guarda de 4ª classe.

Com a criação da Força Expedicionária Brasileira, que enviaria milhares de pracinhas para lutar na Itália, surgiu a necessidade de formar uma tropa de Polícia Militar que acompanhasse o contingente. Caberia a ela fiscalizar, manter a ordem e exercer funções de polícia junto às tropas aliadas. Coube à Guarda Civil Paulista a missão de fornecer os homens que formariam esse pelotão.

Mais de setecentos se voluntariaram; apenas oitenta foram selecionados. Entre eles estava João Gueldini. Após um período de treinamento rigoroso no Rio de Janeiro, embarcou com o primeiro escalão da FEB em 2 de julho de 1944, a bordo do navio americano General Mann. No dia 16 de julho, desembarcou na Itália, na destruída Nápoles, junto aos primeiros combatentes brasileiros a pisar em solo europeu.

Lá, Gueldini integrou a Companhia de Comando e Serviço do Quartel-General da FEB, atuando no Estado-Maior. Como motorista experiente, recebeu um Jeep e a missão de transportar oficiais superiores às linhas avançadas do front, onde as decisões estratégicas eram tomadas sob fogo inimigo. Era uma função que exigia sangue-frio, precisão e coragem.

O início efetivo das operações da FEB ocorreu em 15 de setembro de 1944. No dia 5 de novembro daquele ano, Gueldini preparou sua viatura para uma nova missão: conduzir dois oficiais do 6º Regimento de Infantaria até um ponto de observação. Perto do local, três tanques americanos disparavam incessantemente contra posições alemãs. A cada impacto, a terra tremia e a poeira encobria o horizonte.

Em um intervalo entre disparos, Gueldini notou movimento entre os escombros. Impulsionado pela curiosidade e pelo instinto policial, deixou o veículo e, sozinho, armado apenas com uma pistola calibre .45, avançou a pé pela “terra de ninguém”, a faixa mortal entre os exércitos inimigos.

Avançou entre crateras e fumaça, desviando-se dos destroços. O ar tinha cheiro de pólvora e metal queimado. No interior de uma casamata destruída, encontrou dois soldados alemães feridos, um morto, outro agonizante, e, para sua surpresa, um pracinha brasileiro amarrado e coberto de óleo, à beira de ser queimado vivo.

Gueldini libertou o compatriota, prestou socorro ao alemão sobrevivente e recolheu, como prova da cena, uma pistola belga e um fuzil alemão com luneta, provavelmente de um atirador de elite.

Ao retornar à base, foi advertido pelos oficiais que transportara. Havia agido sem autorização e se exposto desnecessariamente. A glória de um ato heroico se misturava à frieza da disciplina militar.

No dia seguinte, 6 de novembro, outra missão: transportar o tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco, futuro presidente do Brasil, e o major Luiz Tavares da Cunha Mello, futuro general. Perto de Monte Castelo, o Jeep foi atingido por granadas alemãs. Estilhaços atravessaram o assoalho, ferindo gravemente Gueldini no braço e na perna esquerdos. Mesmo sangrando e em choque, manteve o controle do veículo, conduzindo-o até um hospital de campanha americano, salvando a vida dos oficiais.

Permaneceu inconsciente por seis dias. Mais tarde, foi dado como desaparecido em combate e tratado parcialmente nos Estados Unidos, em Miami. Recebeu três condecorações: o Diploma por Ferimento em Ação, a Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil.

Quando retornou ao Brasil, em 1945, reencontrou os oficiais que havia salvo. Ambos o reconheceram em solenidade militar e lhe devolveram as armas que recolhera no front, acreditando, até então, que o policial estivesse morto.

Pouco tempo depois, Gueldini descobriu que parte de seu pagamento havia sido descontada. Durante a guerra, quando um militar cometia uma falta disciplinar, era punido financeiramente, e não com prisão. A multa era referente ao episódio de 5 de novembro, quando se afastara sem autorização para salvar o pracinha brasileiro.

O herói, portanto, foi multado por seu ato de coragem.

Em 25 de março de 1946, foi considerado inapto para o serviço ativo devido aos ferimentos e aposentado como subinspetor da Guarda Civil. Com a unificação das forças, em 1970, foi promovido a 2º tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Décadas depois, em 1980, doou ao 2º Batalhão de Choque da PMESP o fuzil alemão que recolhera na Itália. Hoje, a arma está emoldurada e exposta na Sala do Comandante, como símbolo da bravura daqueles que formaram a Polícia Militar da FEB, origem da atual Polícia do Exército.

Casado com Angelina Deffende, pai de cinco filhos e avô de cinco netos, Gueldini viveu no bairro da Freguesia do Ó até sua morte, em 19 de maio de 2001, aos 80 anos.

Sua vida é testemunho de um Brasil que enviou seus filhos para lutar longe de casa e deixou muitos deles esquecidos nas entrelinhas da história.

A trajetória de João Gueldini revela a essência do soldado brasileiro: corajoso, leal, disciplinado, mas profundamente humano. Sua multa, símbolo da rigidez da hierarquia, jamais apagou o valor de seu ato. Salvou um compatriota e cumpriu, ao seu modo, a maior das missões: preservar a vida.

Passadas décadas, sua história permanece como lição de honra e patriotismo. O tempo transformou a punição em orgulho e o erro burocrático em símbolo de bravura. Em cada soldado anônimo, em cada farda silenciosa, ainda vive o espírito de João Gueldini, o policial paulista que salvou um pracinha na Itália e foi multado por isso.

Batismo de Fogo em Montilocco: Recorações do Coronel Sérgio Gomes Pereira

 A guerra costuma expor a essência humana de forma direta, sem maquiagem nem ilusões. Na linha de combate, o medo se mistura à coragem e o sacrifício assume contornos de permanência. Foi nesse ambiente de incerteza que o Coronel Sérgio Gomes Pereira viveu, em novembro de 1944, na Itália, o momento que definiria para sempre sua presença no front: o primeiro combate em Montilocco.


Integrante do 11º Regimento de Infantaria, ele só sentiu o peso real do confronto após ser deslocado para o pelotão encarregado de proteger Montilocco, um ponto elevado de valor estratégico. O desgaste era contínuo. Patrulhas sucessivas, ataques inesperados e noites de vigilância moldavam lentamente sua resistência. Ele mesmo reconheceria que essa preparação aconteceu passo a passo, no ritmo duro da guerra, marcada pelos golpes de mão que atingiam suas posições.

Montilocco não oferecia descanso. O inimigo mantinha vantagem territorial, observando cada movimento a partir de alturas dominadas pelos alemães. Dois pelotões estavam distribuídos na linha inicial, separados por quase mil metros. O dele ficava em Montilocco, enquanto outro, comandado pelo Tenente Marques Junior, guarnecia Morandella. Foi nesse intervalo entre posições que o Coronel enfrentou o choque inicial do combate. Era o ponto exato onde o inimigo decidiu atacar, de forma brusca e precisa. Na memória dele, esse momento permaneceu como o verdadeiro início de tudo.

A artilharia alemã demonstrava uma precisão inquietante. O Coronel descrevia os disparos como capazes de atingir “dentro de uma marmita”, um retrato da habilidade do adversário em localizar e alvejar suas posições. Não havia espaço seguro. Cada avanço, cada deslocamento, era calculado pelos olhos atentos das tropas inimigas.

O impacto mais doloroso desse primeiro confronto veio com a perda de um dos sargentos de sua fração, morto durante um ataque surpresa. Ao recordar, o Coronel deixava transparecer a dificuldade emocional daquelas horas. O golpe foi duro, mais íntimo do que qualquer outro ataque. Para ele, aquela morte simbolizava a dureza da guerra em sua forma mais direta. Estar em Montilocco era viver exposto, testado dia após dia.

Coronel Sérgio Gomes Pereira

A rotina de patrulhas era exaustiva, mas indispensável. Elas garantiam vigilância constante e permitiam antecipar movimentos alemães. Mesmo sob tensão, os homens do Coronel demonstravam determinação. Ele destacava que, entre seus comandados, não houve problemas disciplinares. Pelo contrário: sempre que uma nova patrulha era anunciada, os soldados assumiam a tarefa sem contestação. Era uma prova da coesão que se formava sob condições extremas.

Mas Montilocco também se impunha como território psicológico. O peso emocional da guerra afetava cada combatente de maneira distinta. Alguns conseguiam preservar o equilíbrio físico e moral; outros sucumbiam à pressão constante. O Coronel atribuía a própria resistência à capacidade de enfrentar, com fé e firmeza, situações que exigiam mais do que estratégia militar. Exigiam força interior.

O frio do inverno italiano ampliava a dureza do combate. Neve, vento e terreno hostil dificultavam manobras e debilitavam ainda mais um pelotão já desgastado. Apesar disso, os homens de Sérgio Gomes Pereira permaneceram unidos. A experiência inicial em Montilocco deixara marcas profundas, mas também criara um grupo mais resistente, preparado para os desafios que ainda surgiriam.

O combate vivido ali deixou claro o custo da guerra e a exigência que ela impõe aos que se colocam na linha de frente. Para o Coronel Sérgio, Montilocco representou o instante exato em que compreendeu, de forma plena, o peso de comandar homens diante de um inimigo obstinado. Era a luta pela sobrevivência, mas também pela dignidade de cada soldado que confiava na firmeza de sua liderança.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A Noite do Caçador: A Glória e o Mistério de U-47 e Günther Prien

 É a madrugada de 14 de outubro de 1939. O local: as águas gélidas e escuras de Scapa Flow, o santuário impenetrável da Marinha Real Britânica, nas Ilhas Orkney, ao norte da Escócia. O mundo prende a respiração. Sob a superfície negra, uma máquina de guerra silenciosa, o submarino U-47, desliza como um predador invisível. No comando, um homem de 31 anos, olhos fixos no periscópio, nervos de aço e uma ambição que desafia a própria morte: o Capitão-Tenente Günther Prien.


Esta não é apenas uma missão militar. É um "golpe de tambor", o Paukenschlag de Prien. Uma operação suicida que mudaria os rumos da guerra no mar e transformaria um homem comum em uma lenda, antes de ser tragado, anos depois, pelo mesmo oceano que o consagrou.

A Missão Impossível

Para entender a magnitude do que aconteceu naquela noite, precisamos voltar aos gabinetes de Berlim. O Almirante Karl Dönitz, o cérebro por trás da força de submarinos alemã, carregava um desejo antigo: penetrar no coração da frota inimiga. Scapa Flow não era apenas um porto; era o símbolo do poder naval britânico. Protegida por correntes violentas, redes antissubmarino, campos minados e navios de bloqueio propositalmente afundados, a baía era considerada inexpugnável.

Mas Dönitz, debruçado sobre mapas e fotografias de reconhecimento aéreo trazidas pela Luftwaffe em setembro de 1939, viu o que ninguém mais viu: uma falha. No Estreito de Holm, entre os navios de bloqueio enferrujados, havia uma brecha. Uma abertura estreita, de apenas 17 metros de largura e sete de profundidade. Era um convite para a morte ou para a glória.

Dönitz precisava de um homem capaz de navegar por aquele buraco de agulha. Sua escolha recaiu sobre Günther Prien. "Tinha as qualidades de soldado e as habilidades de marinheiro necessárias para o empreendimento", diria Dönitz mais tarde. Prien aceitou o desafio após 48 horas de reflexão. A operação exigia sigilo absoluto. Nem mesmo a tripulação sabia para onde estava indo quando o U-47 deixou Kiel em 8 de outubro.

Nas Entranhas do Inimigo

A tensão a bordo era palpável. O U-47, um submarino do Tipo VII B, a espinha dorsal da frota submarina alemã, era uma maravilha da engenharia, mas ali, nas águas traiçoeiras do norte, era apenas uma casca de metal frágil contra a força da natureza e do inimigo.

Na noite do ataque, a sorte parecia brincar com o destino. A aurora boreal iluminava o céu, criando uma visibilidade indesejada. "A baía está repugnantemente clara", anotaria Prien em seu diário de guerra. O submarino navega na superfície, esgueirando-se entre os navios de bloqueio. O casco raspa no fundo, os cabos de aço dos navios afundados roçam o metal. Por um momento, o U-47 fica preso. Mas com manobras bruscas e o sopro dos tanques de lastro, Prien liberta sua nave. Eles estão dentro.

Diante deles, a "Grande Frota" deveria estar ancorada. Mas a baía parecia vazia. A inteligência falhara? Prien não desiste. Ele avista as sombras colossais ao norte. O encouraçado HMS Royal Oak, com suas 29.000 toneladas, e ao fundo, o que a tripulação identificou como o cruzador de batalha HMS Repulse (embora registros históricos sugiram que fosse o navio-base Pegasus ou o Iron Duke).

Torpedos Mortais e o Silêncio da Morte

Prien ordena o ataque. Eram quase uma da manhã. Os tubos de torpedo são inundados. "Fogo!". Três torpedos elétricos G7e rasgam a água, invisíveis, sem deixar o rastro de bolhas característico dos modelos a ar comprimido. O tempo passa. Segundos que parecem horas.

Uma explosão surda no norte. O Royal Oak é atingido na proa. Mas, incrivelmente, nada acontece. A bordo do gigante britânico, muitos acreditam que foi uma explosão interna menor, talvez um acidente no paiol de tintas. A tripulação volta a dormir. O destino lhes deu uma segunda chance, mas eles não sabiam.

No U-47, a frustração é imensa. Um torpedo falhou, outro não detonou. A arma submarina alemã enfrentava problemas técnicos graves com seus detonadores magnéticos e de profundidade. Mas Prien é frio. Ele não recua. Ele ordena a recarga.

Em um feito de adestramento impressionante, a tripulação recarrega os tubos em menos de 20 minutos, no escuro, sob o nariz do inimigo. Às 01h22, a segunda salva é disparada. Desta vez, não há erro.

Os torpedos atingem o Royal Oak a meia-nau. As explosões detonam os paióis de munição. O gigante de aço estremece, a eletricidade falha, e o navio começa a adernar rapidamente. As vigias abertas para ventilação agora engolem o mar. Em minutos, o orgulho da marinha britânica vira de cabeça para baixo e afunda, levando consigo 833 homens para um túmulo úmido e escuro.

A Fuga e a Consagração

O caos se instala em Scapa Flow. Holofotes varrem o céu, procurando bombardeiros, incapazes de conceber que um submarino estivesse ali, no meio deles. Carros correm pela costa. Destróieres começam a patrulhar.

Prien, com a frieza de um cirurgião, ordena a retirada. "Tenho que ver se consigo sair daqui com meu barco", pensa ele. O retorno pelo Estreito de Holm é um pesadelo de correntes contrárias. O U-47 luta contra a maré, avançando lentamente, "na ponta dos pés", passando novamente pelos navios de bloqueio. Às 02h15, eles estão livres. O Atlântico os recebe de volta.

A notícia explode como uma bomba. A BBC confirma o afundamento. Na Alemanha, a propaganda nazista transforma Prien em um ídolo instantâneo. O "Touro de Scapa Flow", como ficou conhecido após sua tripulação pintar a figura de um touro bufando na torre do submarino, retorna a Wilhelmshaven como herói.

A cena no cais é de delírio. O próprio Grande Almirante Raeder o recebe. Hitler envia seu avião pessoal, o "Condor", para levar a tripulação a Berlim. Prien é o primeiro oficial da Marinha a receber a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Ele desfila em carro aberto pela capital, janta com Goebbels, é aclamado pelas multidões. Ele se torna a face da vitória alemã, o homem que humilhou a Marinha Real em sua própria casa.

O Homem por Trás da Lenda

Mas quem era Günther Prien? Nascido em 1908, filho de um juiz, ele fugiu de uma vida burguesa para o mar aos 15 anos. Trabalhou na marinha mercante, aprendeu a dureza da vida nos oceanos. Juntou-se à Reichsmarine em 1933, movido pela necessidade e pela vocação.

Seus superiores o descreviam como um homem de "alegria despreocupada", mas com um "caráter firme e decidido". Era um líder nato. "Tinha a tripulação atrás de si desde o primeiro dia", escreveu seu comandante de flotilha, Ernst Sobe. Ele não era apenas um fanático ideológico, mas um profissional consumado, um tático brilhante que possuía aquele instinto raro dos grandes caçadores.

No entanto, a fama trouxe seu preço. Prien tornou-se uma ferramenta de propaganda. Ele representava o ideal do guerreiro germânico: jovem, destemido, vitorioso. Mas a guerra no mar não perdoa, nem mesmo os heróis.

Desaparecido no Atlântico: O Último Mistério

O tempo avançou. A guerra tornou-se mais brutal. Os "Tempos Felizes" dos submarinos, onde os navios mercantes eram caçados sem oposição, começaram a desaparecer com o advento de novas tecnologias aliadas, como o radar e o sonar.

Em 1941, Prien ainda estava lá fora, caçando. Mas em 7 de março, algo aconteceu. O U-47, o barco que desafiou Scapa Flow, desapareceu nas águas cinzentas do Atlântico Norte enquanto atacava o comboio OB-293.

Por décadas, a história oficial contou que o destróier britânico HMS Wolverine havia encurralado e destruído o U-47 com cargas de profundidade. Seria o fim poético: o caçador caçado por sua presa.

Mas a verdade, como muitas vezes acontece na guerra, é mais turva. Pesquisas modernas indicam que o Wolverine provavelmente atacou outro submarino, o UA, que sobreviveu. O que, então, matou Günther Prien e seus 45 homens?

As teorias são muitas. Teria o U-47 sido vítima de uma de suas próprias armas falhas? Um torpedo que, após disparado, fez uma curva circular e voltou para destruir quem o lançou?. Teria ele colidido com uma mina à deriva? Ou teria sucumbido a uma falha mecânica, mergulhando para o fundo, esmagado pela pressão insuportável do oceano?

Não houve destroços. Não houve corpos. Não houve testemunhas. O Almirante Dönitz e o alto comando mantiveram a morte de Prien em segredo por semanas, temendo o impacto no moral alemão. Quando o anúncio finalmente veio, em maio de 1941, o país entrou em choque.

O Derradeiro Silêncio

Hoje, o local de descanso final do U-47 permanece desconhecido. O "Touro de Scapa Flow" repousa em algum lugar na vastidão escura, um túmulo de ferro para homens que viveram e morreram pela guerra.

A história de Günther Prien é um lembrete sombrio da natureza do conflito. De um lado, a audácia técnica e a coragem humana que permitiram a invasão de Scapa Flow, estudada até hoje em academias navais. Do outro, a tragédia de 833 marinheiros britânicos mortos enquanto dormiam e o destino final, solitário e misterioso, de seus algozes.

O ataque a Scapa Flow foi o ponto alto da carreira de Prien, um momento em que a habilidade individual parecia capaz de dobrar o destino das nações. Mas no fim, o mar reclamou a todos. Resta apenas o eco daquele "golpe de tambor", ressoando através das décadas, uma história de guerra onde a glória e a morte caminham, como sempre, de mãos dadas.