Mostrando postagens com marcador Jorge Alves Pinto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jorge Alves Pinto. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de novembro de 2025

Bajé: A Noite em que o Atlântico Silenciou um Navio Brasileiro

 A história do navio brasileiro Bajé atravessa décadas e guerras, revelando uma trajetória marcada por transformações, tensões diplomáticas e um desfecho trágico gravado na memória marítima do país. Construído em 1912 na Alemanha, o navio surgiu como Sierra Nevada, integrante de uma série de quatro embarcações encomendadas pela Norddeutscher Lloyd de Bremen para atender à crescente demanda de carga e passageiros na Europa. Com arqueação bruta de 8.235 toneladas, 133,90 metros de comprimento e 17,1 metros de boca, era equipado com duas máquinas alternativas de tríplice expansão, então símbolo de confiabilidade e força propulsora.


O destino do Sierra Nevada mudaria radicalmente com o início da Primeira Guerra Mundial. Em setembro de 1914, enquanto estava ancorado no porto de Recife, o vapor foi apreendido pelo governo brasileiro como compensação pelos navios nacionais afundados por submarinos alemães no conflito. A embarcação passou a integrar a frota do Lloyd Brasileiro, recebendo o nome que marcaria sua identidade definitiva: Bajé.

O navio manteve a bandeira brasileira mesmo quando, em 1915, navegou para a França. Em 1922 retornou plenamente às operações do Lloyd, transportando carga e passageiros entre o Brasil e portos europeus. A rotina comercial seguiria até a década de 1940, quando a Segunda Guerra Mundial ampliou a vulnerabilidade das rotas marítimas e colocou o Bajé no centro de uma crise política.

Em 1941, já com o conflito em curso, o navio foi enviado à Europa para embarcar armamentos fabricados na Alemanha e adquiridos pelo governo brasileiro. A operação acirrou disputas internas entre setores simpatizantes do Eixo e defensores da aproximação com os Aliados, num momento em que o país ainda buscava manter neutralidade estratégica. Nesse cenário, destacava-se a habilidade diplomática do presidente Getúlio Vargas, frequentemente fotografado ao lado de Franklin Delano Roosevelt antes da entrada definitiva do Brasil na guerra.

O capítulo final do Bajé começaria em julho de 1943. Integrado ao comboio TJ-2, que seguia de Trinidad ao Rio de Janeiro, o navio aproximava-se da costa brasileira com escalas previstas no Recife e em Salvador. Após deixar o Recife pela última vez, no dia 31 de julho de 1943, seguia com 27 passageiros além da carga. A intensa fumaça expelida por suas chaminés violava normas rígidas de navegação em comboios, o que levou o cruzador Bahia, responsável pela escolta, a determinar que a embarcação se afastasse da formação e prosseguisse sozinha mais próxima da costa.

A ordem, cumprida pelo comandante Artur Guimarães, seria fatal. O Bajé avançava rumo ao litoral baiano enquanto, ao largo da costa de Sergipe, o submarino alemão U-199 patrulhava a área sob o comando do capitão-tenente August Maus. Por volta das 21h, um torpedo lançado pelo submarino atingiu o costado de bombordo do navio brasileiro. Logo depois, uma granada incendiária alvejou o passadiço. A violência da explosão fez o Bajé adornar e afundar rapidamente, impedindo um abandono organizado.

As baleiras foram lançadas às pressas, com talhas cortadas para acelerar o processo, o que provocou avarias graves. Uma delas virou na água, causando a morte por asfixia de dois tripulantes presos sob o casco. Outros sobreviventes permaneceram durante toda a noite agarrados a destroços, chamando uns pelos outros para não se perderem na escuridão. Com a chegada do amanhecer, remanescentes na água foram recolhidos pelos que estavam nas embarcações e iniciaram uma lenta travessia rumo à costa, a cerca de trinta milhas de distância.

As circunstâncias do ataque resultaram em elevado número de vítimas: vinte tripulantes e oito passageiros morreram, entre eles o capitão Artur Guimarães, oficial da reserva da Marinha do Brasil. Nesse cenário de caos, um jovem de 21 anos mostraria coragem exemplar. O praticante-aluno de máquinas Jorge Alves Pinto, recém-formado pela Escola de Marinha Mercante, manteve a serenidade diante do pânico generalizado. Ajudou a arriar uma das baleiras e embarcou, mas ao notar cinco aspirantes do Exército lutando contra a água por não saberem nadar, voltou ao mar e os resgatou um a um. Tubarões já haviam atacado um de seus colegas, mas Jorge persistiu. Com os sobreviventes a bordo, remou por cerca de sessenta milhas até atingir o litoral de Sergipe.


Jorge Alves Pinto seguiria carreira sólida na Marinha Mercante, tornando-se oficial superior de máquinas e professor da Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro, onde lecionou física aplicada e desenho técnico. Participou ativamente de eventos cívicos ligados à participação brasileira na Segunda Guerra e apoiou de forma decisiva a modernização do ensino marítimo no país. Sua figura era presença constante em encontros de antigos alunos e marinheiros, símbolo de uma geração que viveu a guerra no Atlântico.

O reencontro com um de seus antigos alunos, já décadas depois, revela a dimensão humana de sua trajetória. Em 2012, aos 90 anos, Jorge compareceu à cerimônia de lançamento do livro “Torpedo: O Terror no Atlântico”, que revisita a história dos navios brasileiros atacados na guerra. A presença dele tornou o momento especialmente marcante. Um ano depois, em 29 de julho de 2013, sua caminhada se encerraria, mas sua história permanece indissociável da memória marítima nacional.

A saga do Bajé e de seus tripulantes sintetiza o impacto da guerra sobre a marinha mercante brasileira e evidencia a coragem silenciosa de marinheiros que enfrentaram o medo com determinação. Cada nome, cada data e cada lembrança reforçam a importância de preservar essas narrativas como parte essencial da identidade do país, sempre renovada pelo olhar atento às lições do passado.