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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Robert Rosenthal: O Piloto Que Desafiou a Morte na Segunda Guerra

Mesmo um pouco atrasado, eu consegui terminar de assistir a série Mestres do Ar, de 2024. A produção reacende memórias de um período em que o mundo parecia escorregar para um abismo sem fundo. Em 1º de setembro de 1939, a invasão da Polônia pela Alemanha de Adolf Hitler abriu as portas para a Segunda Guerra Mundial. A partir dali, a humanidade seria reconfigurada por descobertas tecnológicas, brutalidade militar e um colapso moral sem precedentes.

Aquele conflito acelerou inovações que transformariam o século XX, desde os primeiros computadores até os helicópteros. Também alimentou a engrenagem do antissemitismo e colocou as maiores potências em uma corrida científica que culminaria na criação da bomba atômica. Em agosto de 1945, as explosões em Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9, tiraram mais de 135 mil vidas e encerrariam de forma definitiva a guerra no Pacífico.

Para os Estados Unidos, a entrada oficial no conflito veio após o ataque a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941. O impacto daquele ataque, visto por milhões em fotografias distribuídas pela imprensa, mudaria o curso de um país inteiro. E no dia seguinte mudaria também o destino de um jovem advogado de 25 anos: Robert Rosenthal.

Nascido no Brooklyn em 11 de junho de 1917, formado no Brooklyn College e na Brooklyn Law School, Rosenthal jamais imaginara que sua vida seria guiada por um cockpit. Trabalhando como advogado desde 1941, acompanhava com atenção o crescimento da histeria nazista. Tinha lido Mein Kampf na faculdade, viu os registros dos comícios em Nuremberg e entendeu o que aquilo representava. Em suas palavras, anotadas anos depois por Donald L. Miller, uma nação inteira havia perdido o senso de humanidade. Precisava ser detida.

Mesmo judeu, não movia sua decisão por motivos pessoais. Enxergava Hitler como uma ameaça universal, algo que colocava em risco qualquer pessoa que se recusasse a aceitar o fanatismo que se espalhava pela Europa. Pearl Harbor foi o estopim que faltava. Rosenthal deixou o escritório de advocacia e se alistou no Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos. Ao chegar à base na Inglaterra, sentiu que estava no ponto exato onde precisava estar: o lugar no qual as democracias buscavam impedir a vitória nazista.

Na Europa, foi integrado ao 100th Bomb Group, unidade que ficaria conhecida como Bloody Hundredth” (Centésimo Sangranto), tamanho o número de baixas sofridas entre junho e outubro de 1943. Foi nesse cenário que Rosenthal enfrentou a missão que marcaria sua trajetória. Em seu terceiro bombardeio, ele e outros doze aviões foram cercados por cerca de duzentos caças alemães. O ataque ficaria registrado como uma das batalhas aéreas mais intensas de toda a guerra.

Rosenthal recordaria mais tarde que, em momentos como aquele, o pensamento da morte desaparece. O piloto concentra a mente em manter a aeronave viva, protegendo sua tripulação. O medo existe, mas não domina. O pânico paralisa; o medo, dizia ele, move. A única angústia real era a possibilidade de falhar com os homens que confiavam em seu comando.

Foi uma combinação de habilidade, frieza e sorte que permitiu o retorno à base. Dos treze aviões, apenas o dele voltou. Rosenthal não comemorou. Sentiu culpa. Perguntou a si mesmo por que sobrevivera quando tantos outros, igualmente competentes e corajosos, não retornaram.

Essa não seria sua única proximidade com a morte. Ao longo da guerra, completou 52 missões. Foi abatido duas vezes. Na primeira, quebrou o braço e o nariz. Na segunda, fraturou novamente o braço e caiu em território controlado por tropas soviéticas, que o confundiram com um alemão. Escapou após gritar palavras soltas que misturavam política, cultura pop e desespero: “Americanski! Coca-Cola! Roosevelt, Churchill, Stalin!”. Funcionou. Sobreviveu.

Mesmo com os ferimentos, não aceitou voltar para casa. Pediu para continuar voando. Colegas passaram a comentar a “lenda de Rosenthal”, alimentada pelo fato de que ele poderia ter encerrado seu serviço, mas insistia em seguir no ar. E pelo fato de que, apesar de tudo, parecia impossível matá-lo.

Quando a Alemanha se rendeu, em maio de 1945, Rosenthal ainda tentou ser enviado para o Pacífico. Treinava para pilotar um novo tipo de aeronave quando o Japão capitulou em 2 de setembro de 1945. Ele tinha acumulado 16 condecorações. A guerra havia terminado, mas sua jornada contra o nazismo estava longe de acabar.

De volta aos Estados Unidos, retornou ao direito em Manhattan, mas logo surgiu uma missão que parecia feita para ele. Passou a integrar a equipe dos Julgamentos de Nuremberg, em 1945 e 1946, participando dos interrogatórios de figuras centrais do regime nazista. Entre elas, Hermann Göring, comandante da Luftwaffe, e Wilhelm Keitel, marechal de campo e uma das principais autoridades militares do Terceiro Reich. Rosenthal viu aqueles homens, outrora altivos e orgulhosos, reduzidos à fragilidade humana diante da Justiça internacional. Para ele, aquilo representou o encerramento simbólico da guerra.

Nos anos seguintes, voltou à vida comum. Casou-se com uma colega advogada que conheceu a caminho de Nuremberg, construiu família, teve filhos, netos e bisnetos. Viveu em paz até 20 de abril de 2007, quando morreu aos 89 anos em White Plains, Nova York. Sua história permanece como testemunho de uma época de extremos e como eco de uma vida dedicada a enfrentar, sem hesitação, uma ameaça que o mundo inteiro temia.

Esse percurso revela mais do que um piloto habilidoso. Mostra um homem que, mesmo quando o planeta parecia inclinar-se ao caos, escolheu colocar-se no centro da tempestade para impedir que ela consumisse o que ainda restava de humanidade. Ele personifica o tipo de coragem que, ao ser lembrada, ilumina períodos sombrios, e continua inspirando quem investiga as camadas mais profundas daquele conflito.