Na Polônia ocupada pelos nazistas, um jovem médico de formação sólida e convicção inabalável fez da ciência um campo de batalha silencioso. Eugeniusz Łazowski, nascido em 1913 em Częstochowa, via-se obrigado a escolher entre o silêncio cúmplice ou a ação contra a máquina de extermínio.
Quando a máquina de horror da Holocausto avançava sobre a Polônia, Łazowski já havia passado por um campo de prisioneiros de guerra e escapado.
Ele se instalou em Rozwadów, hoje distrito de Stalowa Wola, onde atendeu civis e judeus, apesar da ocupação.
Em meio aos horrores correntes, ele se uniu a outro médico, Stanisław Matulewicz, e juntos arquitetaram uma das mais audaciosas operações de resistência médica da guerra.
A descoberta no laboratório de Matulewicz mostrara que a injeção de uma estirpe morta da bactéria Proteus OX19, relacionada à febre tifóide, podia levar a testes positivos, sem que o indivíduo adoecesse.
Łazowski percebeu então que poderiam explorar o medo nazista por epidemias. Se uma zona fosse declarada infetada, os alemães hesitariam em enviar seus trabalhadores ou realizar deportações. Assim, nasceu uma “epidemia” falsa em Rozwadów e em doze vilas vizinhas.
Entre 1942 e 1944, a área entrou em quarentena: milhares de pessoas, estimam-se cerca de oito mil, foram poupadas da deportação ou do trabalho forçado, porque o nazismo temia uma contaminação interna.
Importante: ainda que o número “8.000 judeus salvos” figure em várias versões, registros históricos indicam que o número corresponde ao total das pessoas na zona-quarentena (judeus e não-judeus) e que a ação visava salvar civis em geral, embora judeus tenham sido beneficiados.
Łazowski não apenas se valeu da artimanha biológica, mostrou astúcia tática. Quando os inspectores do Reich desconfiaram da ausência de mortes e vieram investigar, ele ofereceu-lhes um jantar, misturou bebidas, apresentou pacientes “infectados” num quarto sujo e convenceu os oficiais de que a epidemia era real.
Depois da guerra, ele emigraria para os Estados Unidos (em 1958), onde seguiria carreira como professor de pediatria no University of Illinois Chicago.
Até sua morte, em 16 de dezembro de 2006, em Eugene, Oregon.
Este episódio lança luz sobre duas verdades fundamentais: a tirania se assusta com a doença, o opressor teme o invisível, e, por isso, a ciência, aliada ao espírito humano, pode converter a opressão em santuário. Guarde-se o nome de Eugeniusz Łazowski como símbolo desse heroísmo silencioso, porque, no vértice da história sombria, ele escolheu agir com coragem e engenho.

