terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A IMAGEM ETERNIZADA E O ADEUS PREMATURO DA CABO VERA JOHNSON: UMA TRAGÉDIA EM BURY

 Era o final de abril de 1945. A Europa respirava, ainda que com dificuldade, os ares de uma paz iminente que colocaria fim ao conflito mais sangrento da história humana. No entanto, longe das frentes de batalha continentais, na cidade industrial de Bury, no Reino Unido, desenrolava-se um drama pessoal e silencioso que contrastava com a celebração global que se avizinhava. Esta é a história da Cabo Vera Johnson, número de serviço 2698216, uma mulher cuja contribuição para a Força Aérea Auxiliar Feminina ficou marcada não apenas pelo serviço prestado, mas por uma obra de arte e por um desfecho médico trágico e questionável.

Para compreender a trajetória de Vera, precisamos voltar ao início do século vinte, mais precisamente ao dia 28 de abril de 1917, em Radcliffe, Lancashire. Vera nasceu em um mundo em transformação, filha de Alma Johnson e Eunice Paul. É interessante notar o contexto familiar sólido em que ela veio ao mundo. Seus pais haviam se casado na Igreja de St. Mary, em Radcliffe, sete anos antes, em 1910. O pai, Alma, sustentava a casa como supervisor de teares, uma profissão que denotava a forte vocação têxtil da região. A família, que incluía ainda o irmão de Vera, Harry, residia na Ainsworth Road.

Os registros censitários de 1921 nos mostram a família Johnson vivendo na Knowles Street, em Radcliffe. Nessa época, o pai de Vera havia transitado para o setor de vendas, atuando como viajante comercial para a Henry F. Cockill & Sons, uma fabricante especializada em correias de couro e têxteis. A vida, contudo, impôs seu primeiro golpe duro à jovem Vera em fevereiro de 1932. Alma faleceu em Bury com apenas 45 anos de idade. Vera era, então, uma adolescente que precisou amadurecer diante da ausência paterna.

Ao avançarmos para o dia 29 de setembro de 1939, data da compilação do Registro Nacional, encontramos uma Vera já adulta, vivendo com a mãe, Eunice. Elas residiam na casa de Arthur Taylor, um parente, situada na Fountain Street, em Bury. O documento nos revela um detalhe crucial sobre a vida profissional de Vera antes da farda. Ela trabalhava como "fita de borracha para balões de barragem", empregada pela Dunlop Rubber Company em sua fábrica de balões em Gaythorn, Manchester. Esse detalhe profissional não é apenas uma curiosidade burocrática, pois se revelaria fundamental para o papel que ela desempenharia no esforço de guerra britânico. Posteriormente, mãe e filha mudaram-se para a Palace Street, também em Bury.

O chamado para servir ao país foi atendido em 1940. Vera Johnson alistou-se na Women’s Auxiliary Air Force, a força auxiliar feminina da RAF. Sua experiência prévia na Dunlop não foi desperdiçada pelas autoridades militares. Em 1942, encontramos Vera lotada no Centro de Balões de Barragem Número 6, na RAF Wythall, em Worcestershire. A responsabilidade dessa unidade era imensa, pois cabia a eles a defesa aérea, por meio de balões, de uma área de aproximadamente 600 milhas quadradas que cobria o sul de Birmingham e Coventry. As habilidades manuais e técnicas que Vera adquiriu na vida civil foram, sem dúvida, um ativo valioso na manutenção desses gigantes infláveis que protegiam os céus britânicos contra os bombardeiros inimigos.

Foi durante seu tempo em Wythall que a figura de Vera transcendeu os registros militares para entrar na esfera da arte. A renomada pintora Dame Laura Knight a retratou em sua obra intitulada "In For Repairs". No quadro, Vera aparece reparando um balão de barragem, eternizada em óleo sobre tela, executando com precisão a tarefa vital de manter o equipamento pronto para o combate. Além de sua competência técnica, Vera demonstrava versatilidade e espírito de corpo ao atuar como porta-maça da Banda da WAAF, estabelecida na mesma base de RAF Wythall.

À medida que a guerra caminhava para seus estágios finais, a carreira de Vera progredia. Ela alcançou a patente de Cabo e foi transferida para a Escola de Rádio Número 1, na RAF Cranwell, em Lincolnshire. Ali, a missão era formar operadores de telegrafia sem fio e fornecer treinamento técnico para aprendizes de engenharia em áreas críticas como eletrônica e radar. Vera era parte integrante da engrenagem de comunicação e defesa que sustentava a superioridade aérea aliada.

No entanto, o destino reservava um capítulo doloroso justamente quando a guerra se aproximava do fim. Em 19 de abril de 1945, a Cabo Vera Johnson retornou a casa, em Bury, para um período de nove dias de licença. O que deveria ser um momento de descanso e reencontro familiar transformou-se rapidamente em um pesadelo médico. Na segunda-feira seguinte, dia 23 de abril, ela começou a se queixar de dores no pescoço.

O diagnóstico inicial apontou para caxumba. Tratava-se, infelizmente, de um erro de avaliação. A condição de Vera deteriorou-se de forma alarmante nos dias subsequentes. Em 27 de abril, ela foi admitida na Enfermaria de Bury, mas já era tarde para reverter o quadro. Vera faleceu no dia seguinte, 28 de abril de 1945, exatamente no dia em que completava 28 anos de idade. A causa da morte, conforme atestado, foi asfixia provocada por um abscesso.

A morte de uma jovem militar em solo pátrio, longe do fogo inimigo e sob cuidados médicos, gerou questionamentos sérios. O inquérito subsequente sobre o óbito de Vera ouviu críticas contundentes aos médicos envolvidos no caso. O foco das críticas recaiu sobre o diagnóstico incorreto inicial e os atrasos fatais no tratamento adequado. O veredito do legista foi de "infortúnio", ou morte acidental, o que tecnicamente isentou a equipe médica de culpa criminal direta, mas a observação final do oficial foi cortante. Ele notou que o caso revelou "um conjunto de circunstâncias muito infeliz".

Hoje, a memória da Cabo Vera Johnson repousa no Cemitério de Bury, em Redvales, sob os cuidados da Commonwealth War Graves Commission. A inscrição escolhida por sua família para a lápide resume a dor da perda prematura e o afeto que ela despertava em vida: "Mais querida para nós do que as palavras podem dizer, foi aquela que perdemos e amamos tão bem". Sua história permanece como um testemunho não apenas do serviço feminino na Segunda Guerra Mundial, mas também da fragilidade da vida, mesmo quando a paz parecia finalmente ter chegado.

O Policial Paulista Que Salvou um Pracinha na Itália e Foi Multado — A Incrível História de João Gueldini

 Em 10 de outubro de 1919, na tranquila cidade de Leme, interior de São Paulo, nascia João Gueldini, o sétimo de onze filhos de Tereza Nava e Pedro Gueldini. De origem simples, herdou dos pais a força do trabalho e o senso de dever. Desde jovem, mostrou vocação para servir. Aos 18 anos, em 1937, ingressou na Polícia Militar do então Distrito Federal, no Rio de Janeiro, onde permaneceu por cinco anos, servindo em unidades de tradição histórica, ligadas aos tempos da Guerra do Paraguai.

Depois de deixar a corporação, teve breve passagem pela Marinha Mercante e retornou a São Paulo, instalando-se na capital. Trabalhou em uma padaria no Largo do Arouche, no coração paulistano, e conciliava o serviço com o gosto pelas corridas. Nos anos de 1942 e 1943, participou da tradicional São Silvestre, alcançando boas colocações.

O Brasil vivia um momento de virada. Em agosto de 1942, o país declarou guerra às potências do Eixo após o afundamento de diversos navios mercantes brasileiros. O mundo estava em chamas e o país, ainda em formação industrial e militar, seria chamado a provar seu valor. Gueldini, fiel à sua vocação, não hesitou. Em 7 de agosto de 1943, ingressou voluntariamente na Guarda Civil Bandeirante, assumindo o posto de guarda de 4ª classe.

Com a criação da Força Expedicionária Brasileira, que enviaria milhares de pracinhas para lutar na Itália, surgiu a necessidade de formar uma tropa de Polícia Militar que acompanhasse o contingente. Caberia a ela fiscalizar, manter a ordem e exercer funções de polícia junto às tropas aliadas. Coube à Guarda Civil Paulista a missão de fornecer os homens que formariam esse pelotão.

Mais de setecentos se voluntariaram; apenas oitenta foram selecionados. Entre eles estava João Gueldini. Após um período de treinamento rigoroso no Rio de Janeiro, embarcou com o primeiro escalão da FEB em 2 de julho de 1944, a bordo do navio americano General Mann. No dia 16 de julho, desembarcou na Itália, na destruída Nápoles, junto aos primeiros combatentes brasileiros a pisar em solo europeu.

Lá, Gueldini integrou a Companhia de Comando e Serviço do Quartel-General da FEB, atuando no Estado-Maior. Como motorista experiente, recebeu um Jeep e a missão de transportar oficiais superiores às linhas avançadas do front, onde as decisões estratégicas eram tomadas sob fogo inimigo. Era uma função que exigia sangue-frio, precisão e coragem.

O início efetivo das operações da FEB ocorreu em 15 de setembro de 1944. No dia 5 de novembro daquele ano, Gueldini preparou sua viatura para uma nova missão: conduzir dois oficiais do 6º Regimento de Infantaria até um ponto de observação. Perto do local, três tanques americanos disparavam incessantemente contra posições alemãs. A cada impacto, a terra tremia e a poeira encobria o horizonte.

Em um intervalo entre disparos, Gueldini notou movimento entre os escombros. Impulsionado pela curiosidade e pelo instinto policial, deixou o veículo e, sozinho, armado apenas com uma pistola calibre .45, avançou a pé pela “terra de ninguém”, a faixa mortal entre os exércitos inimigos.

Avançou entre crateras e fumaça, desviando-se dos destroços. O ar tinha cheiro de pólvora e metal queimado. No interior de uma casamata destruída, encontrou dois soldados alemães feridos, um morto, outro agonizante, e, para sua surpresa, um pracinha brasileiro amarrado e coberto de óleo, à beira de ser queimado vivo.

Gueldini libertou o compatriota, prestou socorro ao alemão sobrevivente e recolheu, como prova da cena, uma pistola belga e um fuzil alemão com luneta, provavelmente de um atirador de elite.

Ao retornar à base, foi advertido pelos oficiais que transportara. Havia agido sem autorização e se exposto desnecessariamente. A glória de um ato heroico se misturava à frieza da disciplina militar.

No dia seguinte, 6 de novembro, outra missão: transportar o tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco, futuro presidente do Brasil, e o major Luiz Tavares da Cunha Mello, futuro general. Perto de Monte Castelo, o Jeep foi atingido por granadas alemãs. Estilhaços atravessaram o assoalho, ferindo gravemente Gueldini no braço e na perna esquerdos. Mesmo sangrando e em choque, manteve o controle do veículo, conduzindo-o até um hospital de campanha americano, salvando a vida dos oficiais.

Permaneceu inconsciente por seis dias. Mais tarde, foi dado como desaparecido em combate e tratado parcialmente nos Estados Unidos, em Miami. Recebeu três condecorações: o Diploma por Ferimento em Ação, a Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil.

Quando retornou ao Brasil, em 1945, reencontrou os oficiais que havia salvo. Ambos o reconheceram em solenidade militar e lhe devolveram as armas que recolhera no front, acreditando, até então, que o policial estivesse morto.

Pouco tempo depois, Gueldini descobriu que parte de seu pagamento havia sido descontada. Durante a guerra, quando um militar cometia uma falta disciplinar, era punido financeiramente, e não com prisão. A multa era referente ao episódio de 5 de novembro, quando se afastara sem autorização para salvar o pracinha brasileiro.

O herói, portanto, foi multado por seu ato de coragem.

Em 25 de março de 1946, foi considerado inapto para o serviço ativo devido aos ferimentos e aposentado como subinspetor da Guarda Civil. Com a unificação das forças, em 1970, foi promovido a 2º tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Décadas depois, em 1980, doou ao 2º Batalhão de Choque da PMESP o fuzil alemão que recolhera na Itália. Hoje, a arma está emoldurada e exposta na Sala do Comandante, como símbolo da bravura daqueles que formaram a Polícia Militar da FEB, origem da atual Polícia do Exército.

Casado com Angelina Deffende, pai de cinco filhos e avô de cinco netos, Gueldini viveu no bairro da Freguesia do Ó até sua morte, em 19 de maio de 2001, aos 80 anos.

Sua vida é testemunho de um Brasil que enviou seus filhos para lutar longe de casa e deixou muitos deles esquecidos nas entrelinhas da história.

A trajetória de João Gueldini revela a essência do soldado brasileiro: corajoso, leal, disciplinado, mas profundamente humano. Sua multa, símbolo da rigidez da hierarquia, jamais apagou o valor de seu ato. Salvou um compatriota e cumpriu, ao seu modo, a maior das missões: preservar a vida.

Passadas décadas, sua história permanece como lição de honra e patriotismo. O tempo transformou a punição em orgulho e o erro burocrático em símbolo de bravura. Em cada soldado anônimo, em cada farda silenciosa, ainda vive o espírito de João Gueldini, o policial paulista que salvou um pracinha na Itália e foi multado por isso.

Batismo de Fogo em Montilocco: Recorações do Coronel Sérgio Gomes Pereira

 A guerra costuma expor a essência humana de forma direta, sem maquiagem nem ilusões. Na linha de combate, o medo se mistura à coragem e o sacrifício assume contornos de permanência. Foi nesse ambiente de incerteza que o Coronel Sérgio Gomes Pereira viveu, em novembro de 1944, na Itália, o momento que definiria para sempre sua presença no front: o primeiro combate em Montilocco.


Integrante do 11º Regimento de Infantaria, ele só sentiu o peso real do confronto após ser deslocado para o pelotão encarregado de proteger Montilocco, um ponto elevado de valor estratégico. O desgaste era contínuo. Patrulhas sucessivas, ataques inesperados e noites de vigilância moldavam lentamente sua resistência. Ele mesmo reconheceria que essa preparação aconteceu passo a passo, no ritmo duro da guerra, marcada pelos golpes de mão que atingiam suas posições.

Montilocco não oferecia descanso. O inimigo mantinha vantagem territorial, observando cada movimento a partir de alturas dominadas pelos alemães. Dois pelotões estavam distribuídos na linha inicial, separados por quase mil metros. O dele ficava em Montilocco, enquanto outro, comandado pelo Tenente Marques Junior, guarnecia Morandella. Foi nesse intervalo entre posições que o Coronel enfrentou o choque inicial do combate. Era o ponto exato onde o inimigo decidiu atacar, de forma brusca e precisa. Na memória dele, esse momento permaneceu como o verdadeiro início de tudo.

A artilharia alemã demonstrava uma precisão inquietante. O Coronel descrevia os disparos como capazes de atingir “dentro de uma marmita”, um retrato da habilidade do adversário em localizar e alvejar suas posições. Não havia espaço seguro. Cada avanço, cada deslocamento, era calculado pelos olhos atentos das tropas inimigas.

O impacto mais doloroso desse primeiro confronto veio com a perda de um dos sargentos de sua fração, morto durante um ataque surpresa. Ao recordar, o Coronel deixava transparecer a dificuldade emocional daquelas horas. O golpe foi duro, mais íntimo do que qualquer outro ataque. Para ele, aquela morte simbolizava a dureza da guerra em sua forma mais direta. Estar em Montilocco era viver exposto, testado dia após dia.

Coronel Sérgio Gomes Pereira

A rotina de patrulhas era exaustiva, mas indispensável. Elas garantiam vigilância constante e permitiam antecipar movimentos alemães. Mesmo sob tensão, os homens do Coronel demonstravam determinação. Ele destacava que, entre seus comandados, não houve problemas disciplinares. Pelo contrário: sempre que uma nova patrulha era anunciada, os soldados assumiam a tarefa sem contestação. Era uma prova da coesão que se formava sob condições extremas.

Mas Montilocco também se impunha como território psicológico. O peso emocional da guerra afetava cada combatente de maneira distinta. Alguns conseguiam preservar o equilíbrio físico e moral; outros sucumbiam à pressão constante. O Coronel atribuía a própria resistência à capacidade de enfrentar, com fé e firmeza, situações que exigiam mais do que estratégia militar. Exigiam força interior.

O frio do inverno italiano ampliava a dureza do combate. Neve, vento e terreno hostil dificultavam manobras e debilitavam ainda mais um pelotão já desgastado. Apesar disso, os homens de Sérgio Gomes Pereira permaneceram unidos. A experiência inicial em Montilocco deixara marcas profundas, mas também criara um grupo mais resistente, preparado para os desafios que ainda surgiriam.

O combate vivido ali deixou claro o custo da guerra e a exigência que ela impõe aos que se colocam na linha de frente. Para o Coronel Sérgio, Montilocco representou o instante exato em que compreendeu, de forma plena, o peso de comandar homens diante de um inimigo obstinado. Era a luta pela sobrevivência, mas também pela dignidade de cada soldado que confiava na firmeza de sua liderança.