terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O Policial Paulista Que Salvou um Pracinha na Itália e Foi Multado — A Incrível História de João Gueldini

 Em 10 de outubro de 1919, na tranquila cidade de Leme, interior de São Paulo, nascia João Gueldini, o sétimo de onze filhos de Tereza Nava e Pedro Gueldini. De origem simples, herdou dos pais a força do trabalho e o senso de dever. Desde jovem, mostrou vocação para servir. Aos 18 anos, em 1937, ingressou na Polícia Militar do então Distrito Federal, no Rio de Janeiro, onde permaneceu por cinco anos, servindo em unidades de tradição histórica, ligadas aos tempos da Guerra do Paraguai.

Depois de deixar a corporação, teve breve passagem pela Marinha Mercante e retornou a São Paulo, instalando-se na capital. Trabalhou em uma padaria no Largo do Arouche, no coração paulistano, e conciliava o serviço com o gosto pelas corridas. Nos anos de 1942 e 1943, participou da tradicional São Silvestre, alcançando boas colocações.

O Brasil vivia um momento de virada. Em agosto de 1942, o país declarou guerra às potências do Eixo após o afundamento de diversos navios mercantes brasileiros. O mundo estava em chamas e o país, ainda em formação industrial e militar, seria chamado a provar seu valor. Gueldini, fiel à sua vocação, não hesitou. Em 7 de agosto de 1943, ingressou voluntariamente na Guarda Civil Bandeirante, assumindo o posto de guarda de 4ª classe.

Com a criação da Força Expedicionária Brasileira, que enviaria milhares de pracinhas para lutar na Itália, surgiu a necessidade de formar uma tropa de Polícia Militar que acompanhasse o contingente. Caberia a ela fiscalizar, manter a ordem e exercer funções de polícia junto às tropas aliadas. Coube à Guarda Civil Paulista a missão de fornecer os homens que formariam esse pelotão.

Mais de setecentos se voluntariaram; apenas oitenta foram selecionados. Entre eles estava João Gueldini. Após um período de treinamento rigoroso no Rio de Janeiro, embarcou com o primeiro escalão da FEB em 2 de julho de 1944, a bordo do navio americano General Mann. No dia 16 de julho, desembarcou na Itália, na destruída Nápoles, junto aos primeiros combatentes brasileiros a pisar em solo europeu.

Lá, Gueldini integrou a Companhia de Comando e Serviço do Quartel-General da FEB, atuando no Estado-Maior. Como motorista experiente, recebeu um Jeep e a missão de transportar oficiais superiores às linhas avançadas do front, onde as decisões estratégicas eram tomadas sob fogo inimigo. Era uma função que exigia sangue-frio, precisão e coragem.

O início efetivo das operações da FEB ocorreu em 15 de setembro de 1944. No dia 5 de novembro daquele ano, Gueldini preparou sua viatura para uma nova missão: conduzir dois oficiais do 6º Regimento de Infantaria até um ponto de observação. Perto do local, três tanques americanos disparavam incessantemente contra posições alemãs. A cada impacto, a terra tremia e a poeira encobria o horizonte.

Em um intervalo entre disparos, Gueldini notou movimento entre os escombros. Impulsionado pela curiosidade e pelo instinto policial, deixou o veículo e, sozinho, armado apenas com uma pistola calibre .45, avançou a pé pela “terra de ninguém”, a faixa mortal entre os exércitos inimigos.

Avançou entre crateras e fumaça, desviando-se dos destroços. O ar tinha cheiro de pólvora e metal queimado. No interior de uma casamata destruída, encontrou dois soldados alemães feridos, um morto, outro agonizante, e, para sua surpresa, um pracinha brasileiro amarrado e coberto de óleo, à beira de ser queimado vivo.

Gueldini libertou o compatriota, prestou socorro ao alemão sobrevivente e recolheu, como prova da cena, uma pistola belga e um fuzil alemão com luneta, provavelmente de um atirador de elite.

Ao retornar à base, foi advertido pelos oficiais que transportara. Havia agido sem autorização e se exposto desnecessariamente. A glória de um ato heroico se misturava à frieza da disciplina militar.

No dia seguinte, 6 de novembro, outra missão: transportar o tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco, futuro presidente do Brasil, e o major Luiz Tavares da Cunha Mello, futuro general. Perto de Monte Castelo, o Jeep foi atingido por granadas alemãs. Estilhaços atravessaram o assoalho, ferindo gravemente Gueldini no braço e na perna esquerdos. Mesmo sangrando e em choque, manteve o controle do veículo, conduzindo-o até um hospital de campanha americano, salvando a vida dos oficiais.

Permaneceu inconsciente por seis dias. Mais tarde, foi dado como desaparecido em combate e tratado parcialmente nos Estados Unidos, em Miami. Recebeu três condecorações: o Diploma por Ferimento em Ação, a Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil.

Quando retornou ao Brasil, em 1945, reencontrou os oficiais que havia salvo. Ambos o reconheceram em solenidade militar e lhe devolveram as armas que recolhera no front, acreditando, até então, que o policial estivesse morto.

Pouco tempo depois, Gueldini descobriu que parte de seu pagamento havia sido descontada. Durante a guerra, quando um militar cometia uma falta disciplinar, era punido financeiramente, e não com prisão. A multa era referente ao episódio de 5 de novembro, quando se afastara sem autorização para salvar o pracinha brasileiro.

O herói, portanto, foi multado por seu ato de coragem.

Em 25 de março de 1946, foi considerado inapto para o serviço ativo devido aos ferimentos e aposentado como subinspetor da Guarda Civil. Com a unificação das forças, em 1970, foi promovido a 2º tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Décadas depois, em 1980, doou ao 2º Batalhão de Choque da PMESP o fuzil alemão que recolhera na Itália. Hoje, a arma está emoldurada e exposta na Sala do Comandante, como símbolo da bravura daqueles que formaram a Polícia Militar da FEB, origem da atual Polícia do Exército.

Casado com Angelina Deffende, pai de cinco filhos e avô de cinco netos, Gueldini viveu no bairro da Freguesia do Ó até sua morte, em 19 de maio de 2001, aos 80 anos.

Sua vida é testemunho de um Brasil que enviou seus filhos para lutar longe de casa e deixou muitos deles esquecidos nas entrelinhas da história.

A trajetória de João Gueldini revela a essência do soldado brasileiro: corajoso, leal, disciplinado, mas profundamente humano. Sua multa, símbolo da rigidez da hierarquia, jamais apagou o valor de seu ato. Salvou um compatriota e cumpriu, ao seu modo, a maior das missões: preservar a vida.

Passadas décadas, sua história permanece como lição de honra e patriotismo. O tempo transformou a punição em orgulho e o erro burocrático em símbolo de bravura. Em cada soldado anônimo, em cada farda silenciosa, ainda vive o espírito de João Gueldini, o policial paulista que salvou um pracinha na Itália e foi multado por isso.

Batismo de Fogo em Montilocco: Recorações do Coronel Sérgio Gomes Pereira

 A guerra costuma expor a essência humana de forma direta, sem maquiagem nem ilusões. Na linha de combate, o medo se mistura à coragem e o sacrifício assume contornos de permanência. Foi nesse ambiente de incerteza que o Coronel Sérgio Gomes Pereira viveu, em novembro de 1944, na Itália, o momento que definiria para sempre sua presença no front: o primeiro combate em Montilocco.


Integrante do 11º Regimento de Infantaria, ele só sentiu o peso real do confronto após ser deslocado para o pelotão encarregado de proteger Montilocco, um ponto elevado de valor estratégico. O desgaste era contínuo. Patrulhas sucessivas, ataques inesperados e noites de vigilância moldavam lentamente sua resistência. Ele mesmo reconheceria que essa preparação aconteceu passo a passo, no ritmo duro da guerra, marcada pelos golpes de mão que atingiam suas posições.

Montilocco não oferecia descanso. O inimigo mantinha vantagem territorial, observando cada movimento a partir de alturas dominadas pelos alemães. Dois pelotões estavam distribuídos na linha inicial, separados por quase mil metros. O dele ficava em Montilocco, enquanto outro, comandado pelo Tenente Marques Junior, guarnecia Morandella. Foi nesse intervalo entre posições que o Coronel enfrentou o choque inicial do combate. Era o ponto exato onde o inimigo decidiu atacar, de forma brusca e precisa. Na memória dele, esse momento permaneceu como o verdadeiro início de tudo.

A artilharia alemã demonstrava uma precisão inquietante. O Coronel descrevia os disparos como capazes de atingir “dentro de uma marmita”, um retrato da habilidade do adversário em localizar e alvejar suas posições. Não havia espaço seguro. Cada avanço, cada deslocamento, era calculado pelos olhos atentos das tropas inimigas.

O impacto mais doloroso desse primeiro confronto veio com a perda de um dos sargentos de sua fração, morto durante um ataque surpresa. Ao recordar, o Coronel deixava transparecer a dificuldade emocional daquelas horas. O golpe foi duro, mais íntimo do que qualquer outro ataque. Para ele, aquela morte simbolizava a dureza da guerra em sua forma mais direta. Estar em Montilocco era viver exposto, testado dia após dia.

Coronel Sérgio Gomes Pereira

A rotina de patrulhas era exaustiva, mas indispensável. Elas garantiam vigilância constante e permitiam antecipar movimentos alemães. Mesmo sob tensão, os homens do Coronel demonstravam determinação. Ele destacava que, entre seus comandados, não houve problemas disciplinares. Pelo contrário: sempre que uma nova patrulha era anunciada, os soldados assumiam a tarefa sem contestação. Era uma prova da coesão que se formava sob condições extremas.

Mas Montilocco também se impunha como território psicológico. O peso emocional da guerra afetava cada combatente de maneira distinta. Alguns conseguiam preservar o equilíbrio físico e moral; outros sucumbiam à pressão constante. O Coronel atribuía a própria resistência à capacidade de enfrentar, com fé e firmeza, situações que exigiam mais do que estratégia militar. Exigiam força interior.

O frio do inverno italiano ampliava a dureza do combate. Neve, vento e terreno hostil dificultavam manobras e debilitavam ainda mais um pelotão já desgastado. Apesar disso, os homens de Sérgio Gomes Pereira permaneceram unidos. A experiência inicial em Montilocco deixara marcas profundas, mas também criara um grupo mais resistente, preparado para os desafios que ainda surgiriam.

O combate vivido ali deixou claro o custo da guerra e a exigência que ela impõe aos que se colocam na linha de frente. Para o Coronel Sérgio, Montilocco representou o instante exato em que compreendeu, de forma plena, o peso de comandar homens diante de um inimigo obstinado. Era a luta pela sobrevivência, mas também pela dignidade de cada soldado que confiava na firmeza de sua liderança.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A Noite do Caçador: A Glória e o Mistério de U-47 e Günther Prien

 É a madrugada de 14 de outubro de 1939. O local: as águas gélidas e escuras de Scapa Flow, o santuário impenetrável da Marinha Real Britânica, nas Ilhas Orkney, ao norte da Escócia. O mundo prende a respiração. Sob a superfície negra, uma máquina de guerra silenciosa, o submarino U-47, desliza como um predador invisível. No comando, um homem de 31 anos, olhos fixos no periscópio, nervos de aço e uma ambição que desafia a própria morte: o Capitão-Tenente Günther Prien.


Esta não é apenas uma missão militar. É um "golpe de tambor", o Paukenschlag de Prien. Uma operação suicida que mudaria os rumos da guerra no mar e transformaria um homem comum em uma lenda, antes de ser tragado, anos depois, pelo mesmo oceano que o consagrou.

A Missão Impossível

Para entender a magnitude do que aconteceu naquela noite, precisamos voltar aos gabinetes de Berlim. O Almirante Karl Dönitz, o cérebro por trás da força de submarinos alemã, carregava um desejo antigo: penetrar no coração da frota inimiga. Scapa Flow não era apenas um porto; era o símbolo do poder naval britânico. Protegida por correntes violentas, redes antissubmarino, campos minados e navios de bloqueio propositalmente afundados, a baía era considerada inexpugnável.

Mas Dönitz, debruçado sobre mapas e fotografias de reconhecimento aéreo trazidas pela Luftwaffe em setembro de 1939, viu o que ninguém mais viu: uma falha. No Estreito de Holm, entre os navios de bloqueio enferrujados, havia uma brecha. Uma abertura estreita, de apenas 17 metros de largura e sete de profundidade. Era um convite para a morte ou para a glória.

Dönitz precisava de um homem capaz de navegar por aquele buraco de agulha. Sua escolha recaiu sobre Günther Prien. "Tinha as qualidades de soldado e as habilidades de marinheiro necessárias para o empreendimento", diria Dönitz mais tarde. Prien aceitou o desafio após 48 horas de reflexão. A operação exigia sigilo absoluto. Nem mesmo a tripulação sabia para onde estava indo quando o U-47 deixou Kiel em 8 de outubro.

Nas Entranhas do Inimigo

A tensão a bordo era palpável. O U-47, um submarino do Tipo VII B, a espinha dorsal da frota submarina alemã, era uma maravilha da engenharia, mas ali, nas águas traiçoeiras do norte, era apenas uma casca de metal frágil contra a força da natureza e do inimigo.

Na noite do ataque, a sorte parecia brincar com o destino. A aurora boreal iluminava o céu, criando uma visibilidade indesejada. "A baía está repugnantemente clara", anotaria Prien em seu diário de guerra. O submarino navega na superfície, esgueirando-se entre os navios de bloqueio. O casco raspa no fundo, os cabos de aço dos navios afundados roçam o metal. Por um momento, o U-47 fica preso. Mas com manobras bruscas e o sopro dos tanques de lastro, Prien liberta sua nave. Eles estão dentro.

Diante deles, a "Grande Frota" deveria estar ancorada. Mas a baía parecia vazia. A inteligência falhara? Prien não desiste. Ele avista as sombras colossais ao norte. O encouraçado HMS Royal Oak, com suas 29.000 toneladas, e ao fundo, o que a tripulação identificou como o cruzador de batalha HMS Repulse (embora registros históricos sugiram que fosse o navio-base Pegasus ou o Iron Duke).

Torpedos Mortais e o Silêncio da Morte

Prien ordena o ataque. Eram quase uma da manhã. Os tubos de torpedo são inundados. "Fogo!". Três torpedos elétricos G7e rasgam a água, invisíveis, sem deixar o rastro de bolhas característico dos modelos a ar comprimido. O tempo passa. Segundos que parecem horas.

Uma explosão surda no norte. O Royal Oak é atingido na proa. Mas, incrivelmente, nada acontece. A bordo do gigante britânico, muitos acreditam que foi uma explosão interna menor, talvez um acidente no paiol de tintas. A tripulação volta a dormir. O destino lhes deu uma segunda chance, mas eles não sabiam.

No U-47, a frustração é imensa. Um torpedo falhou, outro não detonou. A arma submarina alemã enfrentava problemas técnicos graves com seus detonadores magnéticos e de profundidade. Mas Prien é frio. Ele não recua. Ele ordena a recarga.

Em um feito de adestramento impressionante, a tripulação recarrega os tubos em menos de 20 minutos, no escuro, sob o nariz do inimigo. Às 01h22, a segunda salva é disparada. Desta vez, não há erro.

Os torpedos atingem o Royal Oak a meia-nau. As explosões detonam os paióis de munição. O gigante de aço estremece, a eletricidade falha, e o navio começa a adernar rapidamente. As vigias abertas para ventilação agora engolem o mar. Em minutos, o orgulho da marinha britânica vira de cabeça para baixo e afunda, levando consigo 833 homens para um túmulo úmido e escuro.

A Fuga e a Consagração

O caos se instala em Scapa Flow. Holofotes varrem o céu, procurando bombardeiros, incapazes de conceber que um submarino estivesse ali, no meio deles. Carros correm pela costa. Destróieres começam a patrulhar.

Prien, com a frieza de um cirurgião, ordena a retirada. "Tenho que ver se consigo sair daqui com meu barco", pensa ele. O retorno pelo Estreito de Holm é um pesadelo de correntes contrárias. O U-47 luta contra a maré, avançando lentamente, "na ponta dos pés", passando novamente pelos navios de bloqueio. Às 02h15, eles estão livres. O Atlântico os recebe de volta.

A notícia explode como uma bomba. A BBC confirma o afundamento. Na Alemanha, a propaganda nazista transforma Prien em um ídolo instantâneo. O "Touro de Scapa Flow", como ficou conhecido após sua tripulação pintar a figura de um touro bufando na torre do submarino, retorna a Wilhelmshaven como herói.

A cena no cais é de delírio. O próprio Grande Almirante Raeder o recebe. Hitler envia seu avião pessoal, o "Condor", para levar a tripulação a Berlim. Prien é o primeiro oficial da Marinha a receber a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Ele desfila em carro aberto pela capital, janta com Goebbels, é aclamado pelas multidões. Ele se torna a face da vitória alemã, o homem que humilhou a Marinha Real em sua própria casa.

O Homem por Trás da Lenda

Mas quem era Günther Prien? Nascido em 1908, filho de um juiz, ele fugiu de uma vida burguesa para o mar aos 15 anos. Trabalhou na marinha mercante, aprendeu a dureza da vida nos oceanos. Juntou-se à Reichsmarine em 1933, movido pela necessidade e pela vocação.

Seus superiores o descreviam como um homem de "alegria despreocupada", mas com um "caráter firme e decidido". Era um líder nato. "Tinha a tripulação atrás de si desde o primeiro dia", escreveu seu comandante de flotilha, Ernst Sobe. Ele não era apenas um fanático ideológico, mas um profissional consumado, um tático brilhante que possuía aquele instinto raro dos grandes caçadores.

No entanto, a fama trouxe seu preço. Prien tornou-se uma ferramenta de propaganda. Ele representava o ideal do guerreiro germânico: jovem, destemido, vitorioso. Mas a guerra no mar não perdoa, nem mesmo os heróis.

Desaparecido no Atlântico: O Último Mistério

O tempo avançou. A guerra tornou-se mais brutal. Os "Tempos Felizes" dos submarinos, onde os navios mercantes eram caçados sem oposição, começaram a desaparecer com o advento de novas tecnologias aliadas, como o radar e o sonar.

Em 1941, Prien ainda estava lá fora, caçando. Mas em 7 de março, algo aconteceu. O U-47, o barco que desafiou Scapa Flow, desapareceu nas águas cinzentas do Atlântico Norte enquanto atacava o comboio OB-293.

Por décadas, a história oficial contou que o destróier britânico HMS Wolverine havia encurralado e destruído o U-47 com cargas de profundidade. Seria o fim poético: o caçador caçado por sua presa.

Mas a verdade, como muitas vezes acontece na guerra, é mais turva. Pesquisas modernas indicam que o Wolverine provavelmente atacou outro submarino, o UA, que sobreviveu. O que, então, matou Günther Prien e seus 45 homens?

As teorias são muitas. Teria o U-47 sido vítima de uma de suas próprias armas falhas? Um torpedo que, após disparado, fez uma curva circular e voltou para destruir quem o lançou?. Teria ele colidido com uma mina à deriva? Ou teria sucumbido a uma falha mecânica, mergulhando para o fundo, esmagado pela pressão insuportável do oceano?

Não houve destroços. Não houve corpos. Não houve testemunhas. O Almirante Dönitz e o alto comando mantiveram a morte de Prien em segredo por semanas, temendo o impacto no moral alemão. Quando o anúncio finalmente veio, em maio de 1941, o país entrou em choque.

O Derradeiro Silêncio

Hoje, o local de descanso final do U-47 permanece desconhecido. O "Touro de Scapa Flow" repousa em algum lugar na vastidão escura, um túmulo de ferro para homens que viveram e morreram pela guerra.

A história de Günther Prien é um lembrete sombrio da natureza do conflito. De um lado, a audácia técnica e a coragem humana que permitiram a invasão de Scapa Flow, estudada até hoje em academias navais. Do outro, a tragédia de 833 marinheiros britânicos mortos enquanto dormiam e o destino final, solitário e misterioso, de seus algozes.

O ataque a Scapa Flow foi o ponto alto da carreira de Prien, um momento em que a habilidade individual parecia capaz de dobrar o destino das nações. Mas no fim, o mar reclamou a todos. Resta apenas o eco daquele "golpe de tambor", ressoando através das décadas, uma história de guerra onde a glória e a morte caminham, como sempre, de mãos dadas.