Otto Hayao: o aviador brasileiro de origem japonesa morto em 1944

Filho de um diplomata japonês e de uma brasileira, Otto Hayao serviu à Força Aérea Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Sua morte em São Paulo, em dezembro de 1944, revela uma história marcada por lealdades nacionais, suspeitas de espionagem e documentos que atravessaram décadas.



Rio de Janeiro, dezembro de 1944. Enquanto os jornais acompanhavam o avanço dos Aliados na Europa, um pequeno aviso fúnebre registrava uma perda ocorrida no Brasil. Na edição de 6 de dezembro, o periódico A Manhã comunicou a morte de Otto Hayao, ocorrida na sexta-feira anterior, 1º de dezembro, em São Paulo. A família convidava parentes e amigos para a missa de sétimo dia, marcada para 7 de dezembro, às 7h30, na Matriz de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

O anúncio não explicava as circunstâncias. Para compreendê-las, é necessário seguir uma trilha que passa pelos arquivos diplomáticos e chega à história da Força Aérea Brasileira. Otto era o filho mais velho de Suetaka Hayao, funcionário da representação japonesa no Rio de Janeiro. Filho de pai japonês e mãe brasileira, integrava uma família cuja vida foi atravessada pelas tensões da Segunda Guerra Mundial.

Suetaka trabalhava na embaixada japonesa no Brasil desde 1915. Casou-se com uma brasileira e teve filhos no país. Quando a guerra rompeu os vínculos entre os dois governos, essa história familiar ganhou uma dimensão política inesperada: enquanto o pai permaneceu ligado à proteção dos interesses japoneses, Otto ingressou na aviação militar brasileira.

O Brasil rompeu relações diplomáticas com o Japão, a Alemanha e a Itália em janeiro de 1942. Em agosto daquele ano, após os ataques de submarinos a navios brasileiros, declarou guerra à Alemanha e à Itália, mas não ao Japão. A declaração contra o Império japonês somente viria em junho de 1945. Essa distinção importa: quando Otto morreu, o Brasil combatia o Eixo, mas ainda não estava formalmente em guerra com o país de origem de seu pai.

Após o rompimento diplomático, o embaixador Itaro Ishii e outros representantes japoneses deixaram o Brasil. Suetaka, porém, permaneceu no Rio de Janeiro. Sem as imunidades diplomáticas anteriores, passou a colaborar com a embaixada da Espanha, responsável por proteger interesses japoneses. A documentação examinada pelo historiador Vitor Puech Bahia Diniz mostra que o trabalho continuou sob vigilância e suspeitas.

Em 3 de março de 1942, a embaixada britânica enviou ao Itamaraty uma comunicação que apontava Suetaka como suspeito de espionagem. Era uma acusação, não uma comprovação de culpa. Num ambiente de medo, censura e perseguição a pessoas associadas ao Eixo, a família Hayao ocupava uma posição particularmente delicada: o pai era observado pelos Aliados; o filho servia à força aérea de um país alinhado a eles.

O destino de Otto aparece de forma objetiva em outra fonte. Uma nota da Embaixada do Japão ao Itamaraty, datada de 14 de julho de 1953, recordou que um dos filhos brasileiros de Suetaka havia morrido na FAB, “no cumprimento do dever”, em um acidente aéreo em São Paulo, em 1944. O documento foi identificado por Diniz no Arquivo Histórico do Itamaraty, em Brasília, no maço 70.282.

Lido ao lado do aviso publicado em A Manhã, esse registro permite estabelecer a data do falecimento: 1º de dezembro de 1944. Não permite, entretanto, descrever a queda. As fontes consultadas não identificam o modelo do avião, a unidade de Otto, o aeródromo, o tipo de missão ou outros ocupantes. Também não autorizam apresentá-lo como piloto de combate na Itália. Preencher essas lacunas com uma cena dramática seria trocar a investigação pela invenção.

Naquele mesmo período, os aviadores do 1º Grupo de Aviação de Caça operavam no teatro italiano. A trajetória de Otto, porém, documentada em São Paulo, chama a atenção para outra dimensão da mobilização aérea: os militares que serviam no território brasileiro e cujas histórias raramente alcançaram a memória pública da guerra, com riscos que os documentos nem sempre explicam.

O conflito terminou, mas não as ameaças à família. Depois da rendição japonesa, Suetaka reconheceu a derrota do Japão e tornou-se alvo da Shindo Renmei, organização extremista que perseguia integrantes da comunidade nipo-brasileira considerados “derrotistas”. Segundo a pesquisa da UnB, seu nome figurou entre os ameaçados de morte e ele recebeu proteção policial.

Em 21 de dezembro de 1953, Suetaka recebeu a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul das mãos do chanceler Vicente Rao. A embaixada japonesa, ao solicitar a homenagem, mencionara os vínculos brasileiros do ex-diplomata, incluindo o filho morto enquanto servia à FAB. A lembrança de Otto voltou à imprensa em 29 de outubro de 1957, quando o Jornal do Brasil noticiou promoções póstumas do aviador aos postos de segundo-tenente e primeiro-tenente.

Por trás dessas datas permanece uma história que não cabe numa divisão simples entre brasileiros e japoneses. Otto Hayao era brasileiro, tinha ascendência japonesa e morreu servindo à FAB durante a Segunda Guerra Mundial. Seu nome ficou preservado no luto anunciado por uma família, nos papéis de duas diplomacias e na documentação militar posterior. O que ainda falta descobrir deve permanecer como pergunta — não como fato inventado.

Comentários