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| Reconstituição histórica ilustrativa criada com Iteligência Artificial da Operação Mercator II, baseada no artigo e em referências do veleiro Passim. Não é uma fotografia original de 1943. |
Na noite de 9 de agosto de 1943, dois homens desembarcaram na praia de Gargaú, no litoral norte do Rio de Janeiro, depois de atravessarem o oceano Atlântico a bordo do Passim, um veleiro utilizado pela Abwehr, o serviço de inteligência militar da Alemanha nazista. Os recém-chegados não eram refugiados nem sobreviventes de um naufrágio, embora posteriormente apresentassem essas versões às autoridades brasileiras. Transportavam equipamentos de radiocomunicação, dinheiro e instruções para estabelecer uma rede clandestina destinada a transmitir informações militares à Alemanha. Eram Wilhelm Heinrich Köpff, alemão identificado pelo codinome Hedwig, e William Marcus Baarn, nascido no Suriname, então uma colônia neerlandesa. A missão fazia parte da Operação Mercator II, uma tentativa da inteligência alemã de restabelecer suas atividades de espionagem no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. O episódio foi documentado pelo historiador David P. Mowry, em estudo publicado pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), e pelo pesquisador Rob Tuinstra, em investigação divulgada em 1996 pela revista histórica OSO. Os registros mostram que o plano fracassou pouco depois do desembarque, mas a captura dos agentes permitiu às autoridades brasileiras desenvolver uma operação de contraespionagem contra os próprios alemães.
O Brasil na mira da inteligência nazista
Quando o Passim se aproximou do litoral fluminense, o Brasil já estava oficialmente em guerra contra a Alemanha e a Itália. Após uma sequência de ataques de submarinos do Eixo contra embarcações mercantes brasileiras, o governo de Getúlio Vargas reconheceu a situação de beligerância em 22 de agosto de 1942. Nove dias depois, o Decreto nº 10.358 formalizou o estado de guerra. A posição geográfica brasileira, especialmente sua proximidade com a África, tornava o território nacional estratégico para as operações militares dos Aliados no Atlântico Sul. Portos, aeroportos e rotas marítimas eram utilizados para transportar homens, equipamentos, combustível e suprimentos destinados às frentes de combate. Conhecer essa movimentação interessava diretamente ao comando alemão, que procurava identificar embarcações, cargas militares, aeronaves e possíveis deslocamentos de tropas. Nesse contexto, a Abwehr decidiu enviar agentes capazes de estabelecer comunicações clandestinas a partir do Brasil, utilizando uma embarcação relativamente discreta para realizar a travessia oceânica.
O veleiro escolhido para a operação foi o Passim, uma embarcação de dois mastros, do tipo ketch, comandada por Heinz Garbers. O barco já havia participado da Operação Mercator I, em 1942, quando transportou três agentes alemães para regiões do sudoeste da África e de Angola. Após aquela missão, retornou à França ocupada, onde passou por reparos antes de receber uma nova tarefa. Desta vez, seu destino seria o litoral brasileiro. A documentação histórica apresenta divergências quanto à data exata da partida. O estudo de David P. Mowry menciona 23 de maio e 9 de junho de 1943, enquanto Rob Tuinstra registra uma saída em 19 de maio, seguida por uma escala nas Ilhas Canárias e pela retomada da viagem em 9 de junho. Apesar das diferenças cronológicas, as duas pesquisas concordam quanto ao objetivo da missão, à embarcação utilizada e à identidade dos agentes enviados pela inteligência alemã.
Os agentes enviados ao território brasileiro
Wilhelm Heinrich Köpff havia vivido no Peru, onde desenvolveu atividades comerciais antes de retornar à Alemanha. Segundo David P. Mowry, era um militante nazista cujos negócios haviam sido afetados pelas restrições comerciais impostas por britânicos e norte-americanos durante o conflito. Depois de regressar ao território alemão, ofereceu seus serviços à Abwehr e acabou selecionado para participar de uma operação de espionagem no Brasil. Seu companheiro de missão, William Marcus Baarn, tinha uma trajetória bastante diferente. Nascido em Paramaribo, em 1908, havia trabalhado como marinheiro mercante antes de se estabelecer em Amsterdã. Durante a ocupação alemã dos Países Baixos, foi recrutado para atividades de inteligência e recebeu aproximadamente quatro meses de treinamento em radiocomunicação, código Morse e criptografia. As circunstâncias exatas de seu recrutamento permanecem menos claras do que as de Köpff. Posteriormente, Baarn declarou que havia aceitado a missão como uma oportunidade de abandonar a Europa ocupada, embora essa explicação não eliminasse sua participação operacional no plano alemão.
De acordo com a investigação de Tuinstra, o planejamento original previa que os dois agentes desembarcassem nas proximidades de Ipanema, no Rio de Janeiro, onde deveriam instalar um transmissor clandestino para enviar informações militares à Alemanha. Entretanto, dificuldades de navegação, problemas de abastecimento e o estado de saúde de Köpff alteraram os planos. O alemão sofria com uma lesão dolorosa na perna e necessitava de atendimento médico. Além disso, havia receio de que a aproximação de uma embarcação desconhecida das praias da capital federal despertasse a atenção das autoridades. Diante dessas circunstâncias, os responsáveis pela missão decidiram escolher um ponto mais afastado, deslocando o desembarque para a praia de Gargaú, então pertencente ao município de São João da Barra, no norte fluminense.
O desembarque clandestino em Gargaú
Segundo a reconstrução histórica publicada por Rob Tuinstra, o Passim lançou âncora a aproximadamente um quilômetro da costa brasileira em 9 de agosto de 1943. Por volta das 23 horas, William Marcus Baarn deixou o veleiro utilizando um bote de borracha para transportar parte dos equipamentos até a praia. A operação foi dificultada pelas ondas próximas à foz do rio Guarindibá, que provocaram a perda de parte da carga. Apesar dos problemas, Baarn conseguiu chegar à areia com o equipamento de radiocomunicação, escondendo o transmissor e o dinheiro antes de seguir em direção ao povoado. Aproximadamente uma hora depois, Köpff também desembarcou. O planejamento previa que os dois homens prosseguissem separadamente, encontrando meios de transporte para alcançar centros urbanos da região e, posteriormente, estabelecer a estrutura clandestina de espionagem. Entretanto, a operação começaria a desmoronar poucas horas depois, quando a presença dos estrangeiros despertou suspeitas entre moradores e funcionários ligados à administração municipal.
Na manhã de 10 de agosto, trabalhadores que realizavam atividades numa estrada da região encontraram um estrangeiro caminhando com dificuldades e procurando informações sobre como chegar à cidade de Campos. Entre os homens presentes estavam Donato Barros de Menezes, responsável pela fiscalização municipal, e Moacyr Lemos Velosa. O desconhecido era Wilhelm Heinrich Köpff, que alegou precisar de atendimento médico e apresentou explicações sobre sua identidade. Pouco depois, outro estrangeiro apareceu na mesma região. Tratava-se de William Marcus Baarn. A presença de dois homens sem documentação satisfatória, que forneciam versões incompatíveis sobre suas chegadas ao país, provocou desconfiança. Durante os questionamentos, Köpff afirmou ter sobrevivido ao naufrágio de uma embarcação pesqueira, enquanto Baarn declarou que havia escapado da queda de um avião atacado por um submarino. As histórias, entretanto, não resistiram à investigação conduzida pelas autoridades brasileiras.
Conforme a pesquisa de Tuinstra, Baarn acabou revelando a existência dos equipamentos clandestinos e indicou o local onde o transmissor havia sido enterrado. A recuperação do material comprometeu definitivamente a missão alemã, impedindo que os agentes estabelecessem a rede de comunicações prevista pela Abwehr. Em 11 de agosto de 1943, os dois estrangeiros já estavam presos em Niterói, onde permaneceram sob custódia das autoridades. A operação planejada durante meses pela inteligência alemã havia fracassado antes mesmo de produzir os resultados esperados. Entretanto, a apreensão dos equipamentos e o conhecimento dos procedimentos utilizados pelos agentes permitiram aos serviços brasileiros de segurança desenvolver uma estratégia que transformaria a captura numa oportunidade de contraespionagem.
A contraespionagem brasileira engana os alemães
Em vez de simplesmente interromper todas as comunicações, as autoridades brasileiras passaram a utilizar Köpff como agente controlado, mantendo contatos com a inteligência alemã sob supervisão. A estratégia consistia em transmitir informações manipuladas ou falsas, fazendo os responsáveis pela missão acreditarem que seus agentes continuavam operando clandestinamente no Brasil. Esse procedimento era conhecido como Funkspiel, expressão alemã associada ao chamado jogo de rádio, uma técnica de contraespionagem empregada durante a Segunda Guerra Mundial para explorar redes inimigas comprometidas. O estudo publicado pela NSA registra que a operação brasileira permaneceu ativa até março de 1944, demonstrando que os contatos alemães continuaram recebendo mensagens durante meses sem perceber imediatamente que a missão original havia sido neutralizada.
A documentação examinada por Rob Tuinstra revela o tipo de informação que interessava à organização alemã. Em 3 de dezembro de 1943, uma mensagem enviada de Hamburgo solicitou dados sobre as defesas do porto do Rio de Janeiro, incluindo a localização de minas e outras instalações defensivas. Em janeiro de 1944, os alemães procuraram descobrir quando tropas brasileiras seriam enviadas ao exterior, informação de evidente interesse militar num momento em que o país organizava sua participação mais direta nas operações aliadas. As solicitações indicavam que a inteligência alemã ainda acreditava na possibilidade de obter dados estratégicos por meio de seus contatos no Brasil. Entretanto, as comunicações estavam submetidas ao controle brasileiro. A operação que deveria abastecer a Alemanha com informações militares havia se transformado num instrumento de desinformação contra seus próprios organizadores.
O julgamento e os documentos da Justiça brasileira
O desfecho judicial da Operação Mercator II apresenta diferenças importantes entre os registros históricos disponíveis. Rob Tuinstra informa que Wilhelm Heinrich Köpff e William Marcus Baarn foram julgados pelo Tribunal de Segurança Nacional em 9 de abril de 1945, quando o procurador Gilberto de Andrade teria solicitado a pena de morte para ambos. Segundo essa reconstrução, o juiz Pedro Borges condenou Köpff a 25 anos de prisão e absolveu Baarn, considerando as circunstâncias de sua saída da Europa ocupada. A condenação de Köpff também apareceu na imprensa brasileira. Na edição de 12 de abril de 1945, o jornal O Estado de Mato Grosso publicou uma manchete relacionada à pena de 25 anos e ao encerramento do caso dos agentes alemães.
Entretanto, documentos preservados pelo Superior Tribunal Militar apresentam uma sequência processual mais complexa. A Revisão Criminal nº 446/1947 identifica uma condenação de Köpff a 27 anos e seis meses de reclusão, estabelecida por acórdão do Tribunal de Segurança Nacional em 28 de maio de 1945. Registros posteriores mostram que sua pena foi reduzida para dez anos em 1948. A situação de William Marcus Baarn também apresenta divergências documentais. Embora a pesquisa publicada em 1996 registre sua absolvição em abril de 1945, a Revisão Criminal nº 613/1952, preservada no acervo do STM, menciona uma condenação de 27 anos e seis meses e um pedido posterior de revisão da pena. Sem o confronto integral dos autos judiciais, não é possível estabelecer com segurança toda a sequência das decisões ou o desfecho definitivo da situação de Baarn. Essas diferenças não comprometem a existência da operação de espionagem, mas demonstram a importância de confrontar relatos históricos, notícias de jornais e documentos judiciais antes de apresentar uma sentença como resultado definitivo.
Uma guerra secreta no litoral brasileiro
A Operação Mercator II revela uma dimensão da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial que ultrapassou os combates em território europeu e a proteção das embarcações no Atlântico. A inteligência alemã também procurou estabelecer estruturas clandestinas no Brasil para acompanhar a movimentação das forças aliadas, identificar instalações estratégicas e obter informações sobre preparativos militares. Em agosto de 1943, dois agentes atravessaram o oceano para cumprir essa missão, desembarcaram numa praia do litoral fluminense e foram descobertos antes que conseguissem estabelecer sua rede de comunicações. A apreensão dos equipamentos e a prisão dos envolvidos permitiram transformar o fracasso da operação alemã numa ação brasileira de contraespionagem que continuou por vários meses. Décadas depois, documentos norte-americanos, pesquisas históricas e processos preservados pela Justiça Militar ajudam a reconstruir um episódio real da guerra de inteligência travada no território brasileiro. A praia de Gargaú, atualmente pertencente ao município de São Francisco de Itabapoana, permanece como um dos cenários dessa história pouco conhecida da espionagem alemã no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.
Naquela praia fluminense, a Segunda Guerra Mundial também foi travada pela inteligência — sem uma batalha convencional, mas com consequências que chegaram aos serviços secretos da Alemanha nazista.
Fontes históricas e documentais
David P. Mowry — National Security Agency (2011). Cryptologic Aspects of German Intelligence Activities in South America during World War II. Center for Cryptologic History, capítulo 2, seção Mercator I and Mercator II, páginas 8–9. Documento disponível no site oficial da NSA.
Rob Tuinstra (1996). Bizarre oorlogsavonturen: William Marcus Baarn, spion van de Nazi's. Revista OSO, volume 15, páginas 159–165. Texto integral disponível na Digitale Bibliotheek voor de Nederlandse Letteren (DBNL).
Superior Tribunal Militar. Revisões Criminais nº 446/1947 e nº 549/1949, relativas a Wilhelm Heinrich Kopff, e nº 613/1952, relativa a William Marcus Baarn. Acervo Arquimedes, Brasília.
O Estado de Mato Grosso. Cuiabá, 12 de abril de 1945, edição nº 1.375. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Fundação Getulio Vargas. Atlas Histórico do Brasil, documentação sobre o estado de beligerância de agosto de 1942 e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

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